domingo, 3 de maio de 2009

O sabor de ganhar um paulistinha foi mais doce que ser campeão do mundo.

Foram poucas horas engalfinhado com aquele maldito puff. O celular de alguém despertou e lá vamonóis pro segundo tempo. Cavalo ta tocando violão no andar de cima. Tuca se revira. Ju ta imóvel. Os caras da Tv sumiram no final do show e ao que parece não vão aparecer hoje. Ser da balada não é, definitivamente, pra qualquer um. 


Tuca pergunta se a van já chegou e como num passe de mágica, Jorjão encosta no portão. Lavei a cara. To arrumando a mala pro show do Raul. Tenho que acondicionar a roupa de mago e o chapéu cônico que não cabe em qualquer canto e não pode amassar. Minha segunda roupa será a cueca samba-canção do Timão e a camiseta "Eu nunca vou te abandonar". Antes do dia terminar serei campeão paulista, ouçam o que eu digo. Chegou todo mundo. Van a postos. Dex me liga e pergunta onde eu estou. Ela ta pegando a Lisandra na frente da casa do André e pede pra gente esperar, prela ir tb. Ok.

A van ta igual ao tobogã no Pacaembu. Juju, eu, Tuca, Cavalo, Dex, Lisandra, Roy, Dimitri, Simon, as filhas Fefê e Marina e uma amiga delas. Tá bom ou quer mais?

Trajeto tranqüilo. Pessoas vagam pelas imediações da Luz, meio bêbadas, meio perdidas. Vem uma notícia que as coisas estão atrasadas e que podemos chegar com calma. Adentramos a área restrita e o papo é exatamente ao contrário. O tempo estimado para a apresentação de todos os discos está ficando além das expectativas. Os horários estão adiantados. Tamos todos dentro do nosso camarim. Coisa de meia hora e palco. To com dor de cabeça por ter domido pouco. Melhor seria ter emendado um show no outro. Que seja.

Coloquei minha roupa de corinthiano. Sobre ela vai a de mago. Aquela repórter da Rádio Cultura que me entrevistou por telefone no carro na quinta quer fazer uma entrada ao vivo depois do show. Mas sua colega da Tv Cultura quer uma entrevista agora. Ta dada. Bonita repórter! 

Voltei pra dentro. Lá fora os caras pra quem eu promeiti uma entrevista estão querendo entrar. Peço pro Rico, nosso iluminador e um dos respondáveis por este palco, que os libere depois do show. Tudo Ok.

Olha o Paulão vestido de mago! Que coisa ridícula. Todos riem, mas acho pertinente á obra do Raul me vestir de Merlin. E foda-se. Dou um role lá fora, tiro fotos, especialmente com as crianças. Ta na hora. Rapaziada no palco. Começa "Abre-te Sésamo". 

Antes de entrar, Banas confirma quarenta mil pessoas na nossa apresentação da madruga e umas três mil agora, ás nove da manhã, no palco do Raul. Pouco importa. É uma honra tocar Raul.O engraçado é que antes de entrarmos e em todos os intervalos e ainda que o palco só toque Raul, a galera não pára de pedir pra tocar Raul. Caralho, isso é que é amor, porra!

Minha entrada com a túnica azul cheia de estrelas douradas e o chapéu cônico causa um impacto. Esperado. Planejado. Eu sou eu e Nicuri é o diabo, porra! "Abre-te..." fica mais rápida e o pessoal gosta. Digo bom dia e nos apresento. Explico que vamos misturar coisas neste baú do Raul, uma vez que as versões definitivas pra essas música o Raul mesmo já fez. Queremos fazer releituras e citações. Apresento Juju. Cito Gary Moore:

- You know i love you. You know it´s true. Gave all my love, baby. What more can I do?

Juju emenda Aluga-se e a galera vem com ela. Ela manja de palco, sabe levar a massa. Tirei a roupa de mago, amarrei os tênis alvi-negros all star (um branco e um preto). Coloquei meu chapéu alvi-negro de vaquinha. Voltei e to vendo a Juju terminar a música. Agora é "Anos 80". O pessoal ri da minha brincadeira no meio com Maradona chupando Riquelme, Evo Morales encoxando Hugo Chaves. O vento fecha a pasta de letras e fico sem cola. Ok, sei esta porra de cor.

Começamos Ângela, que tem uma citação explícita de Don't let me Down dos Beatles. Será que os raulseixistas xiitas vão chiar? A nossa versão tem guitas pesadas e beira o metal. Opa, chegou minha hora de citar os Fab Four. A galera ama. Canta junto. No fim tem mais. A interpretação de Juju tb encanta a galera. Dex ta na área vip á frente do palco, á minha direita, com Lisandra e as mulheres do Simon. Depois vem "Conversa pra Boi dormir". Explico que uniremos de forma inusitada e inédita dois artistas contemporâneos, igualmente geniais, que sempre tiveram fama de faltar a shows, que tiveram influencias de sociedades secretas e religiosas em seu trabalho, que misturarm sons americanos com brasileiros, desenvolvendo uma linguagem única e que, ainda assim, não se suportavam, como cabe a dois gênios. 

Neste palco, aqui e agora, vamos juntar Raul Seixas e Tim Maia. E sigo cantando a letra do Raul. Depois emendo Coroné Antonio Bento. A galera recebe Tim Maia bem, mas meio friamente. Eu amo esta canção que na verdade é de João do Vale e um outro cara que eu não lembro o nome agora.

Dex parece estar gostando. É muito importante te-la na frente do palco. E na minha vida. "Minha Viola", eu digo, é de autoria do pai do Raul. Entra igual e depois vai pro Stevie Ray Vaugham. Ok. Digo que não conheci Raul pessoalmente, mas Sylvio Passos, meu amigo, foi parceiro e bródi do Raul e que ele me garantiu que Raul era corinthiano. Alguns torcem o nariz pro meu corinthianismo exacerbado. Foda-se.

Ju canta o "Conto do Sávio Chinês". Antes eu arremesso uma gaita Bends pra galera. E quando a música começa esqueço de entrar tocando a minha gaita. Peço que os rapazes comecem de novo. Cavalo faz careta. Mas é assim. Façamos o trabalho direito e sorry pela minha distração. A coisa começa de novo e o choro da gaita tocada no local combinado mostra que recomeçar a canção do modo ensaiado foi bom. Juju canta, a galera vai junto. Depois do refrão, faço mais um solo com a gaita em Ré. Aviso Simon pra não acabar a música e mando Juju pedir pro povo cantar este refrão bucólico e quase chapado do Raul. Ficou bonito.

Puxo "Só pra variar" e o peso do riff que criamos faz a galera pular. No meio, depois do solo do Roy, faço aquele discurso inspirado na frase original do Raul: "pena eu não ser burro, não sofria tanto". A isso eu emendo meu discurso, dizendo que se eu fosse burro não ia me incomodar com os políticos gastando meu dinheito em passagens pros amigos e a família irem pra Europa. Junto a isso o mesmo discurso do palco rock sobre fumo, bebida, bares, liberdade. Volto pra letra e a galera vem junto. Tá ótimo.

Em "Baby" eu lembro que teríamos como convidado nesta canção o meu amigo Roberto Seixas, mas que em virtude de uma doença na família ele não virá. Peço que as pessoas enviem energia positiva para que o enfermo, no caso seu filho, se recupere. Até onde sei, ele estava em coma.
Tuca puxa "Stand By me" no início e tudo fica ainda mais bonito. Mesmo com dificuldade com o tom da canção, acho que não cheguei a cagar o esquema.

Vem "Eh meu pai", na minha opinião a nossa melhor recriação neste trabalho. Peso, swing e muita emoção quando canto e penso, como já disse, no meu pai. Termino a canção chorando por trás das lentes escuras do Ray Ban. Ufa.

"Na beira do pantanal" é linda e a cantamos numa versão meio jovem guarda meio Titãs. Esquecemos uma passagem no meio e quase perdi a melodia. Avisei antes o momento da subida de um tom e deu tudo certo. Termino a canção ajoelhado em frente a Juju, quase que me desculpando pelo assassinato contado na canção. No disco esta é a última música. Mas ta faltando uma que nós pulamos e fizemos questão de deixar pro fim. Uma música que nos influenciou muito: Rock das Aranha.

Pau no rock, galera dançando e cantando e encerramos. Abraçados agradecemos a gentileza da galera e eu aviso que vou pro Pacaembu.

Banas me espera na saída do palco e como foi ele quem insistiu pra gente participar deste lance, me cumprimenta ironicamente:

- Parabéns. Quem teve a idéia de colocar vcs aqui?

Ok. Vc venceu. Abraços, bocejos, goles de breja. Tem gente me chamando lá fora para autógrafos. Eu vou depois. Faço uma entrada ao vivo pra Rádio Cultura. Dou a entrevista pros meninos que prometi antes. Beijo Dex, agradeço Lisandra. Faço um aperto de mão triplo com Cavalo e Tuca. E vou lá fora bater papo com os fãs. Fotos, autógrafos, beijos, abraços, eu adoro este pessoal. Vi uma pessoa mais especial ainda do palco com quem preciso falar: o Davizinho, de sete ou oito anos de idade. Nosso fã mirim vive pedindo pra mãe leva-lo em nossos shows. Claro que nunca dá, por causa da censura e da idade. Mas hoje deu. Acho que ele gosta mesmo das minhas fantasias coloridas. Eles não estão mais na frente do palco. Será que foram embora? Rico me diz que estão na porta de trás. 

Ta todo mundo na van e eu vou lá conhecer o carinha. Ta com o braço quebrado. Pego ele no colo que fica sem graça. Os pais tiram a foto. Dou uma gaita pra ele. Rapidamente, mostro um ou dois exercícios prele aprender a tocar. Mais beijos. Acho que fiquei mais feliz que ele.

A van está mais apinhada que nunca. Brincadeiras sonolentas no caminho. Deixamos Juliana na rodoviária. Descemos tudo. Dex deixou seu carro na Gabaju e vamos dar carona pra Lisandra e Tuca. Feito.

To em casa, desfazendo a mala, jogando roupas molhadas no chão, pendurando secas. Demora. To muito cansado e meio lento. Foram dois shows e muitas emoções.

Chuveiro. Dex desabou na cama. Tenho que mudar o foco, pois agora é a operação Timão. To pronto. Pego André em sua casa. Ele ta com os ingressos. Pegamos Tom na seqüência. As ruas estão qualhadas de corinthianos. Bandeiras, buzinaços, a cidade, mais que nunca, hoje se chama Corinthians. 

Paramos perto do Hospital Samaritano. Caminhada um pouco longa até os portões 17 e 19, cadeiras cor de laranja. Algumas latinhas são consumidas em rápidos pit stops. Fila. Muitos. Muitos. Muitos corinthianos pra todo lado e nós felizes de fazer parte dessa massa. A torcida mais do caralho do mundo.

Entramos depois de uma rápida revista policial. Um sol ardido nos ataca assim que adentramos a praça esportiva mais charmosa desta cidade. Puta que pariu. Ta tudo lotado. Vamos descendo, descendo e praticamente nas duas últimas fileiras antes do gramado é que vai dar pra sentar. Ok. Tamo aqui. Duas e quarenta. Um monte de cheerleaders invade o gramado. São as representantes de todos os vinte times que participaram do campeonato. Também as mascotes de todos os times, representados por gente com fantasias. O local reservado pra torcida do Santos tem poucos gatos pingados. A Gaviões tb não ocupa seu lugar. As cadeiras centrais, as mais caras, estão enchendo mais rápido. Vez por outra cantamos algum grito de guerra ou cantamos nosso hino. O locutor, não sei se do nosso time ou do próprio estádio, é um semi- analfabeto que come os "s" no fim das palavras e enrola as frases. Como um porra deste consegue ser locutor? 

Tem bandeiras de plástico providenciadas pelo patrocinador em todos os assentos. Tem muita mulher acompanhada. Belas corinthianas. No passado, quando não aparecia tanta mocinha no campo, a torcida costumava gritar ao avistar uma: "el, el, el, buceta pra fiel". Hoje ta todo mundo politicamente correto. Não sei se gosto disso.

O tempo vai passando. De um momento pro outro a Torcida Jovem do Santos aparece. E vem, ainda que em pequeno número, fazendo barulho. A Gaviões tb chega. O cenário está quase pronto. O campo parece uma largada de corrida de São Silvestre. Dezenas de meninas com roupas coloridas, bichos em tamanho família, repórteres, bicões e no meio disso tudo o trio de arbitragem e os goleiros do Timão se aquecendo. A cada grito mais alto da torcida do Santos a gente responde muito mais alto ainda. Claro. Estamos em franca maioria. O time do Santos vem pra campo fazer um reconhecimento. 

Falta mais de meia hora pro jogo. O campo ta apinhado e eles se misturam e se confundem com as moças que correm de um lado pro outro numa coreografia meio demente. Eles rezam no centro do campo. A torcida vaia e xinga:

- Fábio Costa frangueiro do caralho. Neymar, vai cuidar dos carros lá fora que é teu lugar, seu merda!

Claro que este sou eu. Aproveito e mando Pelé tomar no cu. Nunca é pouco mandar o santista Pelé se foder. Quer agir como torcedor? Como torcedor será tratado!

Timão em campo. Vibração intensa. Foi desta mesma posição na torcida que eu vi o Corinthians perder do Vasco por um a zero na penúltima rodada do Brasileirão de 2007, quando caímos mesmo. O jogo do Grêmio era loteria. Curiosamente, estávamos juntos, eu, André e Tom. Hoje é o dia da redenção. Seremos campeões, puta que me pariu!

O jogo começa. O estádio está apinhado. Inicialmente a coisa está meio igual. O Santos toma mais a iniciativa, como não poderia deixar de ser: eles tem que ganhar de três, caralho! Somos perigosos no contra-ataque. Mas eles vão chegando. Nossa defesa segue bem, mas numa escapada de Cleber Pereira, Felipe sai do gol, eles se chocam e está marcado o penalty. Como estou próximo ao tobogã e o Santos ta atacando pros portões principais, a distancia não permite que eu possa dizer se foi ou não. O que não há duvidas é que o juiz marcou. E Cleber Pereira não perdoou. Uma zero contra.

Não dá nada. Vamos pra cima. Esta taça é nossa, porra! Passam-se cinco minutos e numa jogada transada entre Dentinho e André Santos bem na nossa frente o lateral esquerdo executa a prostituta arrombada do Fábio Costa. 1 a 1. Este foi o placar que eu previ. E pra mim ta ótimo. Fabinho me ligou antes e disse que seria dois a zero ou dois a um. Depois de ter errado na quarta pai Fabinho parece ter perdido a mão. Mas ainda dá pra ser dois a um. Pra mim, se acabar assim, ta ótimo. Campeões e invictos. 

O primeiro tempo termina. Parece cada vez mais improvável a virada Santista tão decantada num dos gritos de guerra da torcida deles. O Santos não é o time da virada, diz Tom, é o time da piada! Vai tomar no cu, peixe da minha rola. A torcida corinthiana não perdoa: "Santos do caralho, lugar de peixe é dentro do aquário".

Simbora pro segundo tempo. Estamos melhores e eles mais nervosos. Começamos a fazer a bola rodar. Gritar Olé vale? Vale, puta que pariu! Chupa. Ronaldo, cara a cara com a bichona Costa. Tentou meter mais um por cobertura. Pô, Fenômeno, não é toda hora que tem pão quente. Domingos, o zagueiro do Santos que deveria jogar de arreios, segue distribuindo botinadas.

- Ô Domingos, seu filho da puta, o Diego Souza ta comendo sua mãe em Santos, animal!

A galera em volta ri. Neymar , o novo Pelé ou Robinho, é substituído. Eu ofereço um emprego de flanelinha pra ele lá fora. Mais risos. Então quer dizer que o raio caiu três vezes no mesmo lugar? Então, o bostinha é o novo Pelé? Então, vai ser como 2002, com pedaladas em cima do Rogério? Olha aqui, Santos, enfia o passado no teu cu, que hoje quem vai levar esta porra somos nós...Pega os seus craques do passado e sua camisa estendida sobre a torcida, esta merdinha de dois por dois e babem ovo nos bandeirões da Estopim, da Camisa 12 e da Gaviões. 

Alô Santos: vcs sabem o que quer dizer este apito do juiz? Quer dizer que acabou e nós somos campeões. 

Antes disso o pterodátilo do Domingos foi expulso, claro. Em meio á festa a pequena torcida do Santos aplaude seus jogadores. Bonito. A torcida fez bonito. E nós tamos com a taça. E eu não sei o que dizer. Só descem as lágrimas. Nem o fogo na hora da entrega do troféu. Nem a volta olímpica, nem mesmo os sanduíches e brejas e brindes depois do jogo. Nada é mais sintomático que meu choro. Eu fiquei um ano na cadeia da segunda divisão, sendo zuado até por torcedores da Lusa. Não há maior humilhação. Deixei Tom, deixei André e nunca senti minhas pernas pesarem tanto. Foram três shows em seguida: dois das Velhas e um do Timão. Campeões invictos. 

Dex massageou minhas pernas doloridas. Fui pra cama com sabor de missão cumprida. Quem sabe, o melhor fim de semana da minha vida. Desta vez, o sabor de ganhar um paulistinha foi mais doce que ser campeão do mundo.

sábado, 2 de maio de 2009

- Boa noite, São Paulo. Levamos 23 anos pra chegar aqui

Dito e feito. Dex saiu do chuveiro, nuazinha como veio ao mundo e eu, como um X-Men, saltei sobre ela, deitei-a no solo e a fiz mulher, já diria Agepê. Amor confeccionado, tomei um chuveiro e ela tb, novamente. Fiquei na Internet até cerca de duas da tarde. No quarto de Juju e Mickey Rourke apenas um silencio sepulcral. Bati e nada. Eu e Dex resolvemos sair pra comer. Antes disso, deixamos na mesa algumas coisas que dariam preles encherem a barriga, tipo arroz, carne, maionese, estas coisas. Quando já estávamos saindo alguns ruídos me levaram a checar o que ocorria no andar de cima. Eles estavam acordando, mas a fome que se abatia sobre nós me obrigou a uma sentença definitiva:


- Ou vcs vem com a gente agora ou ficam por aí. 

Tem comida na mesa. A julgar pela lenta mobilidade de Juju ao lado da cama improvisada, não adiantaria esperar. Eles ficaram e nós saímos em busca de alimento na selva de concreto.

No caminho Dex se lembra que André queria fazer um rango em sua casa e liga pro homem que tem no lugar da cabeça uma caixa d'água. De uns cinco mil litros, eu diria. Vai rolar mesmo uma parada gastronômica e resolvemos passar no mercado pra comprar umas "coisinhas": cerveja, carne e Coca Zero. À parte eu compro algumas brejas importadas, entre elas Krombachers, Washteiners, Quilmes e algumas Eisenbahn. Será meu aperitivo antes do show da Virada Cultural. 

À chegada da casa do cabeça encontramos Lisandra, vascaína de coração, santista fajuta, amiga de colégio de Dex e do Cabeça e vizinha de cima. Está voltando de uma intrépida expedição ao Hopi Hari com seu filho Arthur que hoje ta com o pai. Todos vamos comer e beber no André's. Ele cozinhou um frango com batatas, cenouras, cebolas e sei lá mais o quê. Tem arroz tb, mas quem fez foi a Camila, sua namorada buzanfuda. Estamos comendo e bebendo. Tem skol e Brahma a rodo. Lisandra chega com mais cervejas. O papo engata por um lado meio exótérico: Dex está pra se engajar num lance de espiritismo e Lisandra parece ter experiência no assunto. 

A conversa passa das almas pro futebol com rapidez. Lisandra diz que é santista e vascaína na mesma medida. Mentira. Sei que ela é mesmo é vascaína. No fim ela admite. A trilha sonora vai dos chatos Mercedez Sosa e Gonzaguinha a Chico Buarque e a Clara Nunes. Estes últimos são legais. Era só pra tomar umazinha, mas desceram várias. Cavalo chega e a polêmica continua, sob risos e demência. São quase sete da noite e seguimos falando merda, analisando assuntos "político-esportivos- qualquer-coisa" com a profundidade e a isenção de uma mãe de família. Dex, Lisandra e Camila parecem ter resolvido ir apenas ao show do Raul na manhã de domingo. To meio breaco e isso não é o que eu tinha planejado presse dia de Virada Cultural. Rolou mesmo foi uma virada de cerveja. Simbora pra casa, pois Mickey Rourke e Juju estão lá trancafiados. Tem comida e cerveja, mas estão presos. 

Dex resolve comprar uns lanchinhos numa padaria próxima da casa do Cabeça. Enquanto ela entra eu observo as redondezas e lembro que já vi muitos rachas naquele local, isso antes de colocarem um canteiro no meio. Geralmente rolava de domingo á noite, após os bailes do Acre Clube. O manobrista da padaria me vê com a camisa do Timão e vem puxar assunto. Papo sobre o jogo de amanhã e tal. Digo que estarei no Pacaembu. Bora. Paro pra comprar gelo no posto. Breaco, brinco com um frentista meio mal encarado:

- Eu sou Corinthians – digo

Ele, sem o menor bom humor, diz que "ele é ele". Gelo no carro, ao pagar comento conto a outro frentista a brincadeira que fiz e a fria recepção do seu colega de trabalho. Ele comenta que o cara é mesmo seco e que não ri de nada. Comento, meio bêbado e visionário, que isso deve ser coisa que envolve mulher. O frentista ri e diz que estou certo.

To em casa. Monto minha mala enquanto convidados e Dex tomam lanche. Coloquei as brejas todas num isopor e gelo por cima. Deixei a caixa de isopor com brejas na saída de casa pra tropeçar nelas e não esquecer. Vou ficar quietinho pra melhorar. Tenho trabalho importante pra fazer tonight.

Ainda dormi cerca de uma hora até que o interfone avisou que Jorjão, o homem dos dois tiros, tava lá na porta.

Jorjão tirou o último banco e colocou nosso equipo todo lá. Mesmo assim, não sei como vamos agrupar tanta gente aqui. Sim, pois além da banda (exceto o Roy que foi pro palco rock bem antes, pra tocar no Tutti-Frutti com o pai), teremos uma galera que quer fazer umas gravações com a gente, não sei bem se um documentário, um vídeo ou uma espécie de reality. Tamos indo pegar o Tuca, Eu, a Juju e o Mickey Hourke. Tuca tava bodeado. Parece que depois da balada em Ilha Comprida, teve que levantar ás nove pra pegar os filhos. 

Início de separação pode ser uma coisa complicada, quando rolam picuinhas de parte a parte. Não estou dizendo que pegar os filhos é picuinha. Estou dizendo que o cara chegar do show ás seis e ter que estar em pé ás nove é um pouco desumano. Sinto dizer isso, meu bom amigo Tuca, mas depois da separação a gente conhece uma outra face da pessoa que, eventualmente, a gente amou. E não é muito bonita, não! Sempre lembrando que isso não é absolutamente da minha conta.

Tuca ta meio amuado. Disse que é por que tava dormindo. E tem seu ombro dolorido em função do mosh de sexta. É nóis na Gabaju. A moçada do vídeo compõe um grupo de cinco ou mais pessoas, não consigo precisar. Aí acontece aquele papo de descer da van e já ter gente te esperando com a câmera on apontada pra vc. Perguntas do diretor que nada tem a ver com conversas bestas e seguem uma linha investigativa. Mas, simbora, porra. Vamos tocar no maior palco da Virada Cultural, certamente pro nosso maior público na cidade e provavelmente na nossa história até então, já que o recorde foi uma participação no Quilmes Festival em, pasmem, Assuncion, Paraguai. Uma banda vagabunda como as Velhas Virgens só poderia ter recorde de público no Paraguai, eh, eh,eh. Não posso perder a piada, ainda que seja com a gente mesmo.

A Van ta parecendo metrô na hora do rush. Neste último banco estamos eu, Juju e Simon. No banco seguinte estão Cavalo, Tuca e uma pessoa da gravação. No banco que antecede o do motorista estão dois caras com câmeras e mais uma pessoa da produção deles. Eu não tenho como saber os nomes. Não sei nem o meu nome, caralho! Mickey Rourke ta na frente, ao lado do Jorjão e de uma mocinha loira que tem algo a ver com a vida íntima do motora e eu não tenho a menor intenção de saber que laços os unem. Não tenho dúvidas, no entanto, que eles trepam. Metem. Fodem. Fincam. Compartilham fluídos genitais.

É uma experiência diferente estar rodando pela cidade durante um evento como este que coloca atrações culturais as mais variadas em pontos centrais (e também nos bairros) e de graça. Tem um monte de palcos, cada qual com sua estética, espalhados por aí. Eu gostaria de poder ir ao palco do largo do Arouche pra ver a bregaiada. O palco do Raul, na Luz, onde vamos tocar tb, é outra coisa interessante. O do rock, obviamente, interessa muito. E no palco que eles chamam de principal, onde Maria Rita encerrará a Virada no domingo ás seis da tarde, parece que vai haver uma galera executando o Tim Maia Racional. Aqueles dois discos que ele fez com carinho e devoção e depois renegou. Li sobre isso na biografia do Tim recentemente. As pessoas amam idolatrar estas coisas renegadas, perdidas, pirateadas. Vai ver o Tim fez um disco além do seu tempo que só ta sendo compreendido agora. 

O que eu posso dizer é que esta merda de filosofia racional que se foda. Nenhuma ideologia mais me satisfaz. Vai cagar regra na casa do caralho, seja quem for. Papa, pai de santo, pastor, rabino. Minha pátria é a liberdade. Minha religião é Jesus, sem intermediários.

E com esse papo furado todo, tamos na área da Virada, no centro da cidade. Muita. Muita. Muita. Muita gente andando pra lá e pra cá, ambulantes, barracas de prestação de serviço da prefeitura. Policiamento intenso, marronzinhos orientando o transito. Bloqueios que fazem as ruas normalmente dedicadas aos carros virarem passarelas do povo. E como a multidão é imensa, passar com a van no meio é um trabalho de paciência. Tamos na Ipiranga, com gente pra todo lado e nóis no meio. O motora vai dando farol, andando com cuidado e vamos progredindo em direção do encontro com a São João.

"Alguma coisa Acontece no meu coração. Que só quando eu tomo um chopp no Brahma da avenida São João".

Poderíamos muito bem descer aqui e tomar um ou doze chopps no Brahma. Não dá. Banas, nosso empresário, surge na garupa de uma moto. Ele é um dos cabeças da organização da Virada Cultural. E como a gente não tem "peixe" em lugar nenhum, só somos convidados presses eventos se um de nós estiver envolvido. Não é por falta de público, não. É por falta de lobby, de armação, de conluio. A gente não puxa saco de vagabundo político nenhum. É a quinta Virada Cultural e só agora a gente vai participar. É bem verdade que ano passado tava tudo certo, mas eu tava com minha viagem pra Europa marcada um ano antes e não dava pra cancelar. Pra compensar, a gente toca duas vezes este ano. E sem precisar rastejar ou fazer rapapé pra ninguém. Nóis é nóis e o resto é bosta!

Banas vai meio que abrindo caminho com a moto. Quando já estamos bem perto do portão que dá acesso ao backstage do chamado "palco rock", a muvuca cresce e algumas pessoas se incomodam com a presença da Van. Um idiota começa a bater na lataria e a xingar. Banas vai lá atrás ver. Ele surge minutos depois dizendo que o cara puxou uma faca e tentou golpea-lo. 

Entramos para a da área de segurança do portão, onde só estão artistas, produção, convidados e imprensa. To preocupado com Banas. Ele diz que é "malandro" e se defendeu da facada. É pouco mais de onze da noite. Num corredor em "L" invertido e de cabeça pra baixo, estão vários banheiros á minha esquerda. À direita polícia e ambulâncias. O palco ta em frente e pro lado esquerdo estão três tendas brancas. A primeira pra produção e as outras duas para camarins. Nenhum deles está liberado pra gente ainda. O próximo show é do Camisa de Vênus, motivo da nossa chegada antes: eu quero ver o Camisa, meus ídolos de sempre e amigos tb. 

Mal desço da van, vou encontrando amigos, famosos ou não. Entre os famosos tão Luis Carlini e Rufino do Tutti. Sol, do Tutti tb. Clemente, Inocentes. Franklin Paolilo, ex-um monte de artistas, talvez o maior batera de rock que este país já teve. E, claro, os vagabundos do Camisa: Gustavo, Karl, Robério. Grandes abraços, grandes risadas. Robério me apresenta sua irmã Maria e diz que é aniversário dela. Pede preu sacanea-la no palco. Vou tentar lembrar. Eu esqueci de dizer que o Luis Carlini, pai do Roy, é tb do Camisa. Ficamos ali trocando idéias. Encontro Roy com sua mochila nas costas e seu inseparável amigo Dimitri. Levo Roy pra van, pra se livrar da mochila. 

Ele me diz que já tomou dois conhaques duplos. Cavalo tb passou a tarde bebendo vinho. Tuca está com o ombro meio dolorido. E eu não to como acordei. Isso faz com que metade da banda esteja de sobreaviso e meu cu trancado, diante de um palco enorme (o maior da Virada) e um show desta importância. Deve ser o show da nossa vida, até então. Pego a equipe de TV pela mão e os levo até a caixa de brejas importadas na van. Mostro a variedade, falo aquele papo furado sobre as diferenças e etc. E dou início aos trabalhos com uma Eisebahn. Os outros vão se servindo das delicias cervejeiras. Ta um puta clima legal. Sem que ninguém perceba, saio pela lateral do palco e vou até na frente, pra ter um visual do local onde vamos tocar. Algumas pessoas me reconhecem e pedem fotos, autógrafos ou só um aperto de mão. Porra, o palco é grande e tem gente pra caralho. Banas me falou que, por volta de nove da noite já estavam ali mais de 20 mil pessoas.

Marcelo Nova chega num carro com vidros escuros, aparentemente dirigido por ele. Eu o cumprimento á sua saída. Ela ta com a mulher e o filho Drake. Caralho, como Drake ta grande. Ele se foi pro camarim do Camisa. Eu fico zanzando, falando com as pessoas e bebendo as brejas importadas. Meu bom amigo do PSDB Fernando Guimarães chega acompanhado tb. A todo minuto a gente tromba os amigos e fica aquele papo furado de gente que não se vê faz tempo. Eu esqueço nomes. Sei quem são as pessoas, mas o nome não vem. É assim com a ex do Silvio Passos. Ela me sacaneia perguntando se sei quem ela é. Eu sei, só não lembro o nome.

A galera do Joelho de Porco ta por aqui. Sou fan do Joelho, mesmo depois da morte do Tico Terpins. Tem um cara de smoking que deve ser o primeiro vocal da banda, o ex-gordo Próspero Albanese. Mas ele fez cirurgia de estômago (acho) e ta tão diferente que não tenho cara de perguntar se ele é ele mesmo. Eles estão indo embora. Taí outro show que eu queria ter visto. Vcs talvez não acreditem, mas não me sinto um artista e sim um tiete aqui. Pra mim sou um penetra, neste desfile de gente que influenciou as Velhas e minha vida. E desce cerveja. 

O show do Camisa está pra começar. Me deu vontade de cagar, claro. To na privada do banheiro químico e lá no palco o locutor anuncia Camisa de Vênus na seqüência. E depois Velhas Virgens. Sem competições ou comparações, a vibração da galera ao ouvir nosso nome é maior. Eu não posso crer nisso. Eu to sentado na privada e lá fora os caras vibraram com o anuncio do nosso show. Porra. Além de merda pelo cu, vertem lágrimas dos meus olhos no escuro da caixa plástica de dejetos. Isso ninguém viu. Só vcs vão saber. To de volta e o Camisa ta no palco. Ta todo mundo aqui no backstage vendo a apresentação: Drake e a mãe, Sol, Rufino, todas as Velhas Virgens. 

O Camisa ta com Ivan Busic (Dr. Sin) na bateria, Luis Carlini na guitarra e os fundadores da banda Karl Hummel e Gustavo Müllen nas guitarras, Robério Santana no baixo e Mr. Nova no lead vocal. Marcelo faz questão de cantar antigos sucessos de uma forma diferente. A galera não liga e acompanha. Tem um mané em cima de um árvore alta pra caralho em frente do palco. Uma certa preocupação rola na produção, mas o Camisa segue avassalador. A presença do Luis Carlini, que toca na banda desde os anos 90, dá classe e peso aos solos. As linhas de baixo do Robério são simples mas firmes. Os dois guitarristas fundadores, meus amigos de coração, seguem fazendo bases e brigando entre si. Estas brigas são lendárias entre eles. E o Ivan desce a lenha com a competência de quem sabe o que faz. Karl me olha e sorri. Ele ama estar no palco. Me disse que ta estudando saxofone em Salvador.

- Velho, eu levanto, tomo uma cerveja e começo a assoprar o sax.

Fui pegar uma breja e aproveitei pra ver se já tínhamos camarim. Banas disse que sim e pedi que mandasse alguém levar nossas coisas pra lá, especialmente cerveja. Peguei uma garrafa de Quilmes e to aqui ao lado do palco, vendo os caras. O Ivan toca pra caralho. É bom vê-lo em ação. Carlini pai tropeçou e caiu, me diz Carlini Filho. Eu não vi. Alguém passa a mão na minha bunda. E me agarra por trás. É o Caio, nosso ex-guitarrista, que vai tocar no intervalo entre o Camisa e a gente, com seu trio de violões chamado Trezazez, executando acústicos do Iron Maiden. 

Saudades. Abraços. Dou cerveja pra ele.O show do Camisa segue. Marcelo sempre guarda hits pro final. Em determinado momento ele lembra que as pessoas andam saudosistas com os anos 80, como se tudo fosse uma maravilha. Ele diz que era uma merda. Que o presente do público é que consegue estar pior que o passado, por isso o saudosismo. Marcelo tem competência para falar o que quiser. Tem credibilidade. É, sim, uma lenda viva do rock brasileiro. Pode mudar arranjos, dar sermões, esticar discursos. Ele é o cara! E eu to nervoso de tocar aqui, na minha cidade, pra tanta gente, depois da banda que mais influenciou nosso trampo. 

Me levanto e vou pro camarim. Bebo mais uma. Simon ta aqui. Ju tb. Começo a me trocar. Ta cedo, mas só colocando a armadura preu me tranqüilizar um pouco. Galo, amigo dos caras do Camisa é da Gaviões e ta falando comigo. Estamos meio que combinando um encontro pra ver o jogo juntos no estádio. Claro que ele tb vai. Tem algumas pessoas no camarim. O pessoal do Los Goialez, que toca depois da gente, deixou as coisas aqui. No problem. Eu preciso cagar de novo. Pelo menos já to com minha camiseta de BDSM, com minha cueca samba canção vermelha "Sex Hot", minhas joelheiras e cotoveleiras. E descalço. Passo por Clemente e ele avisa Robério pra tomar cuidado com a visão infernal do "Paulão de cueca". To cagando de novo. De verdade. Isso é bom. Não cago no palco. Lá fora Marcelo terminou O Adventista, com o melhor refrão já escrito em língua portuguesa: 

"Não vai haver amor nesta porra nunca mais". 

O que é que falta? Hum. "Eu não matei Joana D'arc".

Terminou. To alongando no camarim. To nervoso. A galera da TV ta gravando. E eu to nervoso. Cavalo ta dando um bode na van. Tava meio chapado. Os minutos correm. Caio me pediu pra fazer a apresentação dos Trezazez. Nosso palco vai sendo aprontado atrás de um biombo azul, na frente do qual estarão os três violonistas. To no palco e a galera da frente me saúda, me chama de viado, pede cerveja, oferece bebida. Banas ta ao meu lado e argumenta pro macaco descer da árvore em frente ao palco. O cara, surprendentemente, acata e desce, lépido, ágil, como um símio de verdade. Ok. Lá vou eu dar uma de Mestre de Cerimônias:

- Chegou a hora de música instrumental nesta Virada Cultural. Esta é a galera do Trezazez e eles vão fazer alguns sons de uma banda que eu acho que vcs conhecem: Iron Maiden!

O pessoal vibra. Caio agradece com um sorriso. Os caras começam com Fear of The Dark e a massa parece curtir.Volto pro meu transe.

Subir no palco e falar com as pessoas me acalmou. Parece que estamos em casa. A cada final de música instrumental eu ouço coisas distintas. Lá fora o povo aplaude. Aqui atrás alguns ficam indiferentes e outros dizem que ta chato. Eu sou suspeito, Caio é como um irmão e to torcendo pra tudo dar certo.

Ai, meu caralho. Terminei meu aquecimento. Já virei Jack Sparrow da ZN. Saio e dou um rolê pra aliviar. Um visual chacriniano como este faz com as pessoas queiram fotos. Eu nunca tive medo de parecer ridículo. Ta divertido. Volto pro camarim. O som do Caio terminou. É noise. Todo mundo junto. Nosso brinde de urros guturais sem sentido ecoa. A galera sobe a rampa e eu fico andando de um lado pro outro feito tigre enjaulado, como sempre. Uma voz pede pra tirar fotos e, sem ver quem é, eu digo que agora, please, não! To no último minuto de concentração, falando com Jesus e Nossa Senhora. Pedindo que tudo saia como tem saído: bem!

Cubanajarra ta rolando. Subo a rampa rosnando. Entro com aquele desfile de capitão gancho menstruado de um lado pro outro do palco. Careta pro Simon. Chamo a galera. Puta que pariu. Energia sobe e desce pelo corpo na forma de arrepios. É muita gente. E tão com a gente.

- Boa noite, São Paulo. Levamos 23 anos pra chegar aqui. Temos orgulho de ser a maior banda independente do Brasil: Nós somos as Velhas Virgens!

Tuca puxa Rafaela. È nóis. Dou a latada na testa e a galera vibra. Os roadies colocaram um tapete especial preu fazer minha palhaçada e não molhar o chão pras outras bandas. Errei o lugar e molhei. Sorry, Pirata!

O som segue. Faço a referencia a "Rehab" e a galera responde em coro: "no, no, no". Este show ta mais que redondo. Eu não deveria ficar tão inseguro. Mas, como corinthiano e canceriano, tudo pra mim é mais sofrido. E eu amo muito tudo isso.

Emendamos "Pôe tudo". A galera veio na palma. Depois cantou junto. To berrando demais e não me ouço. Claro, fico na ponta do palco, longe dos retornos, como posso me ouvir? Na nossa frente, entre a grade e o palco, rola uma área vip que está lotada. Eu tinha até pensado em pular pra chegar perto das pessoas, mas não há espaço. Começamos "Tudo que a gente faz". O coro de milhares de pessoas vem junto. Em "Essa tal de Tequila" tive a sensação que menos gente cantou, mas a gaita sempre faz o serviço. Mandei uma gaita bends de presente. Pra introduzir a Ju, disse que, como bom amigo deles, eu tinha uma garota pra lhes apresentar.

- A mulher que tem o calor do inferno na buceta, a mulher que exala enxofre. Juliana, a mulher do diabo!

Ju ta no comando e eu desço correndo pra virar "O Homem Lindo". Peço ajuda do Galo pra colocar o sutian. Ele se atrapalha. Segue-se aquele diálogo besta de que ele já deve ter tirado muitos e ele respondendo que sabe tirar e não por. Ok. Desta vez entro já de viado completo, com óculos e boá. To atrás do palco. Juju terminou e eu entrei rebolando, no melhor estilo "dou o cu, e daí?". Sentei no retonro e cruzei as pernas. Uhu!

O pessoal brinca. Canta. Acabou. Rodrigo ainda ta tirando o sutian e Cavalo puxa equivocadamente, segundo o set, Siririca baby. Agora seria Madrugada e Meia. Simbora. O coro vem bem. Tem muita gente e com isso há um atraso na resposta das pessoas lá de trás. As vozes se misturam e eu tenho dificuldade pra reger a galera falando "Siririca" e "Eu toco bronha". Tuca entra e eu me localizo. É noise. Final apoteótico. Falo com a galera sobre estas leias anti-fumo, anti-bebida, sobre fecharem bares. Cito a frase do Bortolotto sobre comprar carne no morro, no dia que for proibida. Falo quem em breve vai ter toque de recolher. Culpo as bancadas religiosas. 

Puxo "Madrugada e meia". Os caras cantam. O set é mesmo mais curto. Só temos uma hora. Peço que Roy puxe direto o riff de "Abre essas pernas". Puxo as palmas que vem. A galera canta comigo. Com esta história de delay causada pela distancia, não deixo que eles cantam trechos muito longos, pra não atravessar com o som do palco. Parece o Aurora. Ta todo mundo cantando. Fomos até o fim em apoteose. É a última. Anuncio a participação de Caio Andrade na guitarra do Roy. Primeiro um teminha de gaita. Tuca faz frases demais e eu me perco na seqüência de oito (ou doze compassos de blues). Paramos. Faço aquela coisa de ir tocando a mesma frase na gaita cada vez mais rápido. Começo a canção e vamonóis. 

No final, uma surpresa: Caio começa a puxar aquela seqüência de riffs históricos que ele fazia antes de sair da banda. Com a entrada do Roy mudamos isso. Ele solta o riff de "Highway to hell" e, claro, o povo vem atrás. Ele fazia bem uns sete ou oito riffs, entre Iron Maiden, Deep Purple, Clash, sei lá. Na hora só me vem Metallica, que seria o último. Ele puxa e a coisa incendeia ainda mais. Porra, o que é que eu peço agora? Pink Floyd. É o apogeu da noite: isqueiros e celulares iluminam a platéia e a gente emenda este clássico emocionante. Puta que pariu, que lindo. Voltamos pro som. Roy pegou a guitarra do Cavalo e ele e Caio tão no palco.

- Eu só sei mesmo é beber!

É isso que o povo canta. A gente vai terminar. Ju fala no meu ouvido que podemos tocar mais uma. Sei que estamos atrasados. Cavalo me olha e como quem diz "vamos parar agora que ta tudo pra cima", me manda terminar. Acabou. Agradecemos abraçados. Saímos do palco nos beijando e abraçando. Público estimado em 40 mil pessoas. Nosso maior show, na nossa cidade. Deu tudo certo, graças a Deus. Bora beber.

Mas não muito, por que ás nove da manhã tem Raul. A bebedeira e os cumprimentos se seguem no basckstage. Fizemos nosso show de sempre, com um pouco mais de adrenaliana, quem sabe. Robério do Camisa ficou o tempo todo ali na frente e parece que curtiu. Queria muito que os outros Camisas tivessem visto. Marcelo, claro, se mandou, eu já esperava. Gustavo saiu fora por conta de sua sobrinha estar passando mal e deve ter levado Karl. Eles não se separam. Carlini ainda tava lá. Aproveitei pra sedimentar o convite prele tocar na nossa música do Corinthians, no próximo disco. 

Foi um belo show. Assinamos nosso nome na Virada 2009. Aposto que nenhum jornalista vai falar da gente. Foda-se. Quem tava lá (e eu estava) não vai se esquecer. Antes de voltarmos pra gabaju pra dar um bode até a hora do show do Raul, passamos do palco do "Maluco Beleza", na Luz, onde tocaremos daqui algumas horas, e deixamos nosso equipo. No caminho Roy pulou da Van com Dimitri e foi tirar o carro do estacionamento, prometendo nos encontrar na Gabaju ás oito. Aproveitei e fiz um reconhecimento do palco. Encontrei Sylvio Passos e lhe presenteei uma Quilmes de um litro. Alex Valenzi e os Hideway Cats estavam se apresentando, com meu amigo Caio Durazzo na guitarra. Queria muito ter visto. Mas tenho que dormir. Trajeto tranqüilo até a ZN. 

Opa, fui peidar e me caguei.

- Pare a van, Jorjão.

Ato continuo, ele me lançou um papel higiênico e cá estou eu, cagando em plena avenida Cruzeiro do Sul. Foi rápido.

Gabaju, here we go. Cavalo se aboletou no andar superior, onde costuma dormir. Juju e Tuca sobre os puffs da sala. Restou um puff pra mim. Mas, todo melado de breja e bosta, eu preciso tomar banho. Já asseado, mamo uma última breja e como pizza que sobrou do show de sexta. É péssimo dormir num puff. To com a bunda relando no chão frio. Tuca ronca. Juju ronca. Vou me juntar a eles nesta sinfonia. Já, já estaremos de pé, no palco de novo. 

É isso que mais gosto de fazer na vida.

EXTRA
Alguns vídeos da nossa apresentação já estão no YouTube:

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Um cheiro poderoso de peido invade o palco

Era coisa de cinco da manhã quando acordei com uma puta dor de estômago. Não aquela aguda, característica de acidez. Uma dor grave, como um soco, empurrando meu estômago pra dentro. Eu avisei que eu tava mal. Morro de medo deste tipo de dor. Em geral é indicação de úlcera. Quando tinha vinte anos tive uma crise estomacal poderosa e fui levado por hospital me contorcendo em dores. O médico me receitou uma dieta de bebê e me disse que eu deveria ter cuidado com álcool.


- Durante toda sua vida você vai poder beber no máximo um chopp por fim de semana – sentenciou o deus de branco para meu desespero de bebum inveterado.

Fiz a dieta direitinho durante um mês e aí arrisquei tomar um chopp. Desceu bem. Os outros quarenta e nove seguiram o mesmo caminho e desde então Jesus Cristo vem me permitindo beber tudo que aparece na minha frente. Ficar sem beber pra mim é um drama. O álcool me relaxa. E a dor de estômago é, no meu caso, resultado de stress. Então, bebo pra desestressar. Mas o álcool irrita gastrites e úlceras. Desta forma, o que me alivia a tensão ao mesmo tempo irrita e a coisa vira um círculo vicioso. É por isso que falo mil e novecentos palavrões por dia: pra jogar todo tipo de stress fora e seguir bebendo. Tudo em nome da birita. E lembrando daquelas dores terríveis de estômago sinto um calafrio por causa do fantasma de ter que deixar de beber. Help me, Lord.

Como Ju ta na casa, fui pro banheiro da Dex, já prevendo peidos, caganeira selvagem e nudez: nestas horas o desespero dá vontade de ficar pelado. Não posso ser pego cagando, peidando e pelado. Ninguém merece.

Passei três horas na privada, cuspindo, arrotando e evacuando em spray. Quando um destes atos corporais acontecia a dor diminuía. A toda hora o sabor do provoalho voltava á boca. Argh! Mas passavam-se alguns minutos e a dor voltava. Tentei deitar-me novamente, mas não deu. Aí, demente de pai e mãe que sou, comecei a cronometrar a periodicidade da dor, que ia e voltava. A intermitencia era de dez minutos. Comecei a monitorar isso pra ver se as contrações iam se distanciando. E descobri que estavam ficando mais espaçadas e mais amenas. Quando deu quase sete da manhã consegui me deitar em posição fetal, abraçando os joelhos. Deveria ter pedido ajuda da Dex, mas preferi não acorda-la. Cochilei.

Acordei quase onze da manhã ainda meio dolorido. Contei pra Dex o que tinha rolado e ela reclamou de eu não te-la acordado, já que ela é uma notória sofredora com dor de estomago e tem remédios de prontidão. Ato contínuo, Dex me trouxe um comprimido, bolachas e água com limão que, segundo ela, trancaria meu "roscofe".

Levantei, coloquei roupa na máquina pra lavar, pus um disco do Robertão na vitrola e fui pro banho enquanto Dex batia papo com Ju tomando capuccino.

A minha merda segue bem pastosa. Banho findo, desço, tiro o Robertão e coloco um disco do Doors, para depois pendurar a roupa. Coloco mais roupa na máquina, agora toalhas pretas. Dex ta preparando uma comida de doente pra mim, com purê e filé de frango. Tuca liga e diz que ta rolando um churras lá. Eu declino. Preciso ficar bom pro show. Porra.

Subo pra checar a Internet. Ju vai pra sua agenda anotar não sei o quê. Almoço pronto. O disco do Doors terminou. Comemos todos juntos. Dex comprou mais umas coisas no mercado. Termino de comer antes delas. Tava com fome. Será prenuncio de recuperação? Preciso ficar bom pro show de logo mais. Quero voltar a beber.

Enquanto elas terminam o almoço, penduro a nova safra de roupa lavada. Desligo a vitrola. Franck, sócio fundador das Velhas Virgens, amigo de anos e anos que mora na região de Iguape me liga e diz que deve aparecer no show da Ilha Comprida, que tb fica na vizinhança. Cool. Não vejo Franck faz tempo. Eu, ele e Rick, acampados em Santiago, fundamos as Velhas em 85. Franck seria o guitarrista, até comprou o instumento, mas nunca aprendeu a tocar. Vai ser do caralho revê-lo. Ele trampa com sacolões na região de Cajati e Eldorado.

Meu cu dá sinais de que vem algo por aí, provavelmente líquido. Não me importo em cagar até morrer. Só não quero soco no estomago. Temos um fim de semana dos mais especiais, com dois shows na Virada Cultural. E que quero curtir cada minuto destes shows na minha cidade.

Hoje faz quinze anos que o Senna morreu. Eu, como quase todo mundo, admirava o cara. Queria ver o Schumacker ganhar tudo que ganhou com ele na pista. Bem, mas a vida é assim. O que a gente mais gosta é que o diabo leva embora, já dizia meu pai. Vou dar um bode. Pra ficar legal!
Acordo ainda mezza-mezza por volta de cinco da tarde. Daqui meia hora a van vem nos pegar, eu e a Ju. Me visto, pego uns documentos na pochete. E fico a postos.

A van do jorjão é azul e ele um parceiro de sempre. Tamos eu e Juju a caminho da casa do Tuca pra pega-lo e depois seguir pro encontro com os outros na Gabaju. Jorjão me conta que sofreu uma tentativa de assalto na porta de sua casa e que foi alvejado por três disparos. Dois o atingiram, um no braço e outro no peito, ambos meio que de raspão. Mas os buracos estão lá, me mostra ele. Foram três jovens, uma menina e dois caras. Nasceu de novo, mano.

Tamos no Tuca e Cavalo tb ta aqui. Os pais do Tuca tb estão no local. Seu Nelson e Dona Dan são meus conhecidos. Ficamos mais próximos na época em que Zé Boy, irmão do Tuca, era meu sócio no Rock'n'roll bar. Agora vamos em direção da Gabaju. Todos estão meio que boquiabertos com a história dos tiros no Jorjão.

Portas da van abertas, Roy, Simon e Rico, que é iluminador mas hoje está de produtor, estão dentro. Cavalo foi pegar sei lá o que. Ah, foi trocar de roupa, uma vez que por ter dormido no Tuca, estava exatamente com a mesma roupa de ontem. Cavalo não é muito chegado em banho. Quando o conheci, em 86, ele tomava um banho por semana. Ou menos. Era sua forma de protestar contra...Sei lá eu que porra. Cavalo sempre foi demente. E não bebia. Fui eu quem lhe ensinou a arte da chapação. Tb sempre fui demente. Mas tomo banho. Não mais que um por dia, é vero.

Bem, exceto por esta parada pra comprar absorvente pra deter a menstruação de Juju, saímos da Gabaju e ganhamos asfalto pela Régis Bittencourt com destino a Ilha Comprida, litoral sul do estado de todos os paulistas. Fui lendo as últimas páginas da biografia do Tim Maia. No final da vida ele tava falido, com a saúde extremente abalada e com a confiança dos contratantes de shows a zero. Morreu, como boa parte dos gênios, num buraco cavado por ele mesmo. Lamentável.

A viagem segue no escuro. Jorjão errou a saída e acessou uma via que nos leva a Peruíbe. Não é aqui, malandro. Voltamos pra pista e mais alguns quilômetros á frente surge a saída correta que nos levará a Iguape. Uma ponte une a Ilha ao continente e é nela que estamos agora, exatamente sobre um braço de mar. Terra firme. Ta beirando dez da noite e o show é ás onze. Pegamos muito trânsito na serra e estamos meio que no limite. Procuro começar minha concentração uma hora antes dos shows. Isso sugnifica sentar num camarim e bebericar batendo papo. Meu estômago está meio estranho, mas desconfio que seja por estar vazio mesmo. Preciso comer algo, de preferência leve. Dex pediu preu não beber. Sorry, dear. I need it!

Encostamos a van ao lado do palco no local do evento, sobre as areias da praia. Rico sai pra checar o que ta rolando. Não ta rolando nada. Não tem camarim, não tem comida, não tem banheiro. Não tem porra nenhuma. O cara faz um puta evento e não coloca um lugar pros músicos ficarem. E eu realizo quatro trocas de roupa durante o show, fora as trocas da Ju. Rico nos leva prum restaurante por quilo próximo. O dono se recusa a nos autorizar alimentação sem uns tais "tíquetes". To puto. O resto da galera vai prum bar de sandubas perto e come. Eu pego uma cerveja com o Marcelão do Maverick 70 que abriu a noite de rock e sento na calçada. Puto pela falta de estrutura. Vai tomar no cu. Roy descola uma Smirnoff Ice e senta comigo. 

Permanecemos em silêncio. To muito puto. E meu estômago dói. Não posso transferir esta raiva, não posso somatizar a coisa, senão é pior pra mim. E eu gosto mais de mim. Eu gosto pra caralho de mim.

Rico volta, me dá cinqüenta paus e me manda comer no quilo. Avisa preu pegar nota ao pagar. Mando purê, frango e peixe pra baixo, tudo em pequenas quantidades. O estômago melhora. Aparentemente era fome. Comer faltando meia hora prum show é uma péssima idéia. A gente entra no palco pesado, arrotando e vira e mexe a comida volta pra boca. Ah, então é assim? O cara nos tratou sem a menor estrutura? Ok. No camarim improvidado dentro da van da técnica (que sempre vai antes pra ajeitar tudo) aviso que vou beber, alongar, me vestir e preciso de uma hora. Foda-se.

Eu e Ju tamos aqui na parte de trás. Chegam cervejas, uma garrafa de Smirnoff e algumas latinhas de energético. A coisa começou a ficar do meu jeito. Tiro a roupa, coloco a cueca samba-canção e a camisa preta do ACDC do primeiro figurino e faço um drink de vodka e red Bull. Não tem gelo. Porca miséria. Abro uma cerveja e ela desce quase toda no primeiro gole. Todo mundo está pelos menos duas cervejas atrasado nesta vida. O resto da banda ta na outra van ou zanzando aqui por perto. Não tem espaço pra muito mais que duas pessoas se trocando aqui. Descem drinks, eu vou me alongando, vou me vestindo. To me sentindo muito bem. Dei vários arrotos e espero que não vomite no palco. Soltei uns peidos e saíram totalmente secos. Eu não peidava sem me cagar desde quinta á noite. Meu cu ta cool! Rico abre a porta e pergunta quanto tempo. To quase pronto, mas quero fazer um terrorzinho:

- Meia hora!

Lá no palco a apresentação das mocinhas em luta no gel terminou e estão limpando tudo pra gente entrar. Vira e mexe, uma das Velhas abre a porta da Van pra reabastecer o tanque de álcool.

Ok, simbora. O locutor anuncia o início do show. Não fizemos nosso tradicional brinde e isso é uma merda. Porra de lugar sem camarim, caralho. A gente não é fresco e nem viadinho. Um local pra ficar antes do show e uns drinks é pedir demais? Vai tomar no cu.

Simon conta. Vestido de pirata, eu to andando freneticamente em círculos ao lado da Van. Venta muito na praia, a ponto de eu ter que segurar o chapéu. Algumas pessoas gritam meu nome e tentam se aproximar, mas este é meu momento de maior concentração e não paro por nada. A música ta comendo no palco. Subo as escadas que dão acesso. Vou duas vezes até a ponta do palco com as mãos para trás, como um capitão de navio preocupado com algo. Olho pro Simon e trocamos uma última careta. Microfone. Cubanajarra. A galera responde. Ta chovendo fraco, mas eles não arredam o pé da frente do palco. É nóis.

As músicas vão se sucedendo. Dou mais uns arrotos, mas ninguém percebe. Na hora de apresentar Edu, que ta na lojinha, consulto a produção, pois o lugar é enorme e não tenho acesso visual ao nosso parceiro. Lá está ele, do lado direito de quem me olha, longe toda vida. Chamei Ju. Fui me trocar na Van. Preciso que alguém me ajude a por o sutiã do homem lindo. Rico bateu a porta da van e eu não consigo abrir. Fiquei trancado. Caralho. Bato, esmurro. Me tirem daqui. Rico volta e me mostra como abrir a porta por dentro. Eu sou uma besta. Rico coloca o sutiã em mim. No palco Juju comanda a massa com "A mulher do diabo".

To pronto. Troquei de posição com a Ju. To me sentindo muito bem. É o álcool. O show segue. Tem areia no palco pra caralho. Em "Blues do Velcro" Juju me derruba no chão e cai sobre mim. Fico á milanesa por causa da areia. Ela parece que machucou o joelho. Nada sério. Um blues de improviso anuncia que: "hoje é sexta, amanhã é sábado e domingo o Timão será campeão". Tem alguns corinthianos ensandecidos na frente do palco. Eles querem subir. "Abre essas pernas "é um coro só. Um cheiro poderoso de peido invade o palco. Todo mundo sente e começamos a apontar um pro outro, rindo e procurando o responsável. Cavalo diz que não foi ele e aponta pra mim. Digo que eu não fui e aponto pro Tuca. Ele olha pro Roy que ri, mas diz que não é o pai da criança. Juju canta e a gente realiza um prebiscito em pleno palco para achar o autor do flato. Simon se esquiva chacoalhando a cabeça. A conclusão é óbvia: foi a Juju. Ela ri e nega. A música segue com o palco fedendo. Uns Drinks. Acabou.

Volto pro bis vestido de padre: "Deus é pai e a cachaça vai". A gente reza pela santa cana que está na roça. Depois falo dos shows na Virada Cultural, especialmente do palco do Raul.

- Temos orgulho de tocar Raul Seixas, o cara que ensinou o rock brasileiro a pensar!

Mandamos "Só pra variar". Faço um discurso criticando políticos. Seguimos com Raul. Juju canta "Aluga-se". Enquanto isso eu danço e tomo uns goles no palco. Na seqüência fazemos a melhor apresentação de "Eh meu pai" ao vivo até agora. Fiquei até emocionado pensando, claro, no meu pai. A dobradinha final é "A minhoca.../beijos de corpo". Emendo um "Minha vida é o rock'n'roll", lembrando que o Made in Brazil é a verdadeira maior banda de rock este país. To no baixo, Cavalo na guita do Ray, Rodrigo Beduíno na outra, Mickey Rourke, marido da Ju, na batera. Tuca e Roy, os solteiros da vez, dão mosh. A galera delira. Cavalo encerra a música. Nos abraçamos e agradecemos. Acabou por hoje.

Me enfiei na van pra arrumar minha tralha. Juju faz o mesmo. Lá fora uma galera chacoalha a van, querendo falar com a gente. Checo meus apetrechos e falta a porra dos óculos RayBan que eu comprei junto com a fantasia de Merlin. Foram só dez reais, mas não quero perde-lo logo no primeiro show. Fuça daqui, fuça de lá e nada dos óculos. Juntei a roupa molhada num saco, soquei tudo na mala e to no meio de uma galera dumas trinta pessoas, entre mocinhas e rapazes. Empurra-empurra, autógrafos, fotos, beijos, abraços. Começa a chover e carrego os restantes pra deibaixo do palco. Mais fotos, autógrafos, abraços. Rico me resgata, me joga na van e sai á procura de Roy e Tuca. O guitarrista aparece primeiro. Tuca vem em seguida, meio contrariado.

- Por que temos que subir com tanta pressa? Pergunta ele.

Parece que tava se dando bem. Meu ócilos aparece. Tamo na pista. Jorjão erra o caminho várias vezes. Não dá nada. Cavalo foi deitar lá atrás. Ju ta enrolada no banco. Rico paga algumas pessoas. Roy e Tuca estão doidões. O asfalto vai passando. Silencio profundo. Parada pra mijar. Mais silencio. Tamos em sampa. Vejo placas indicando a marginal. Deixamos Simon. Tamos na Gabaju. A equipe técnica descarrega. Vamos esperar Mickey Rourke, já que ele vai dormir lá em casa com a Ju. Uma parte do equipamento fica na Gabaju. Outra parte vem pra Van do Jorjão, já prevendo a ida pra Virada Cultural. Eles vão nos pegar ás dez da noite. Tamo a caminho da minha casa. To no banheiro lendo o jornal fresquinho, fresquinho. Ju e Mickey Rourke tão bodeados no quarto. À minha leitura segue-se um banho. 

Agora me deitei ao lado da Dex que acorda e começamos um papo profundo sobre várias coisas. Ela destaca que quando eu não chego chapado a gente pode conversar. Ela diz que eu não to dando no couro. Tento um ataque matutino, mas ela diz que encomendado não vale. Ok. São sete de manhã. Vamos dormir. 

Ao acordar vc não me escapa, mocinha.