domingo, 15 de dezembro de 2013

treme japao - capítulo 7 - bebedeira na véspera da final

Japão  - 15 de dezembro de 2012  –  Sunshine City Prince Hotel – Tóquio  - Sábado

Sinceramente, ainda não tô autentico. Um certo gosto de cabo de guarda-chuva ainda habita minha cavidade oral. Olhos abertos. Hum! O roncador está em ação. No problem, pois já passa um pouco das nove e temos café da manhã. Banheiro. Sequencia ejetora de fluídos, gases e semi sólidos. Aguinha quente! Chuveiro. Escovação dental. Sabonete. Shampoo. Condicionador. Uhu! Tô novo. Lá vem Adney. O banheiro é dele. Simbora pro café da manhã. Hoje a galera que comprou pacotes turísticos terá mais um dia de visitas. Eu vou visitar uma fábrica de cerveja e conhecer o Japão dos japoneses e não dos turístas.
Café de pedreiro com macarrão, salsicha, peixes defumados, missoshiro, pães, sopa, tudo. Todo dia é assim! O que mais se vê no salão são camisas do timão. O Sunshine é mesmo nossa embaixada. Rango devorado, hora de voltar ao quarto pra pegar grana, agasalho e dar mais um barro. Adney torpedeia Afonso que está atrasado. Ele quer ganhar tempo nos encontrando no metrô Ikebukuro. Simbora. A escalação? Eu, Jorginho e Rochinha.
A cada vez que entro no formigueiro do metrô fico assustado. São quilometros de túneis, salas, passagens, catracas. Nada comparável ao que vi em Londres, Paris ou São Paulo. É uma cidade subterranea. Uma grande cidade. Me faz pensar que de fato seja, dado o passado bélico recente do país, uma espécie de bunker para onde a população pode correr numa emergencia, inclusive da natureza. Adney tornou-se o dr. Metrô. Sabe sempre para onde ir, sacando entradas e saídas deste labirinto tecnológico. A cada vez que me defronto com um destes painéis informativos povoados das malditas arvorezinhas sinto que estou num outro planeta, ainda que esteja apenas do outro lado dele.
É aqui? Não? É ali? Pra direita? Pra esquerda. Opa, olha o Afonso ali. E aí, man? Observando os tais painéis informativos percebo que eles indicam o pagamento da passagem em função da distancia. Ao que parece, há várias companhias operando em Toquio e não necessariamente o bilhete de uma serve para as outras. Ou seja, sem o Afonso aqui, fudeu!A melhor saída é pegar o tal trem circular, Yamanote Line, que passa pelas maiores estações locais. Um trecho custa 160 yenes. Dois trechos o dobro. E assim vai. Afonso nos indica como comprar na máquina. È só colocar as moedas, apertar os botões e pronto. Catracas. Andar com o Afonso é garantia de boas histórias e informações quase 100% seguras. Como ainda é de manhã e estamos todos sóbrios, a demencia verborrágica está sob controle. Enquanto nos posicionamos dentro do trem, Afonso conta detalhes desta tradição de manter as mãos masculinas sempre á vista dentro das composições. De fato, se uma destas japinhas resolver acusar um de nós, yankees, de assédio, nossa extradição pode ser imediata.
Algumas baldeações depois  temos que descer na estação de Ebisu e Afonso aciona seu GPS. Uma garoa fina vem nos espera na saída do metrô e deixa esta manhã de sábado bastante paulistana. Estamos à procura de um local onde funcionou a fábrica da cerveja Yebisu e que hoje está desativada, abrigando um grandioso complexo comercial e o museu da cerveja. Afonso nos guia através de alguns becos e neles dá pra ver alguns salões de beleza onde japinhas fazem as unhas das mãos. Com o frio que faz aqui, unhas dos pés recebem atenção zero o que, para um pedolatra como eu, é uma total decepção. Sobe, desce, pergunta, se perde, damos com um centro comercial chamado Yebisu Garden Place, composto por alguns arranha-céus e vários tipos de lojas.
A Yebisu é uma das cervejas mais antigas do Japão e era fabricada neste local desde 1890 pela Japan Beer Brewery Company. A produção da cerveja foi interrompida com o final da segunda guerra mundial, que só voltou a ser comercializada em 1971, após uma série de transações comerciais que resultou na venda da marca para a Sapporo. Basicamente são cervejas Lager (de baixa fermentação), uma mais clara e outra escura, ambas com 100% de malte de cevada. É considerada uma cerveja premium, ou seja, feita com ingredientes nobres e selecionados. E mais curioso ainda é que foi o nome da cerveja quem batizou o bairro. Olha o Museu da Yebisu aí, gente. E a coisa é mesmo classe A. Estatuas típicas japonesas e de figurões ligados á marca estão na porta. Latas gigantes adornam a entrada. Todo o espaço começa no plano da rua e as escadas dão acesso a um salão monumental na parte inferior onde se vê uma enorme caldeira cor de cobre desativada. Pra direita está o bar. Pra esquerda, ao lado da caldeira, uma espécie de restaurante para harmonizações. E totalmente á esquerda, o museu propriamente dito, com garrafas, cartazes e fotos que contam a história centenária deste monumento cervejeiro. Taí um templo que eu visitaria todos os dias. Fazemos uma farra fotográfica na porta e nos primeiros pavimentos do museu, inclusive com uma foto tendo ao fundo, atrás de nós, um tapete com o símbolo da cervejaria. Simbora descer, minha gente.
Começamos nosso passeio pela esquerda de quem entra. A primeira é uma sala de espera para quem quer fazer o tour. São 500 yenes  (+ ou - 13 reais) para ouvir explicações em japonês e inglês, eu imagino. Abdicamos do guia e caminhamos nos deliciando com gravuras, garrafas que se assemelham ao que conhecemos como garrafas de saquê, barrís, canecas, maquetes de bares. Não dura nem 10 dos 40 minutos que levaríamos com o guia. Ótimo. Vamos pro lado oposto passando direto pelo resturante de hamonizações e pela caldeira. A idéia é começar a bebedeira. Antes de chegarmos ao bar propriamente dito, esbarramos num espaço cheio de lembranças como copos, canecas, toalhinhas, chaveiros e todo tipo de presentes com o nome da cerveja. Certamente eu iria deixar alguns Yenes ali. Depois. Agora, não? Drink time, bro.
No bar local eles servem 5 tipos de chopp: Yebisu Lager premium (a loira clássica deles, 5% de teor alcoólico), Kohaku Yebisu (amber lager, mais avermelhada, com 5,5% de teor alcoólico), Yebisu The Black (lager escura com 5% de teor alcoolico e malte tostado), Yebisu Stout Creamy Top (é uma Schwarzbier, cerveja escura de origem alemã e apesar da citação Stout, que faria dela uma Ale, é uma lager com 5% de teor alcoólico e notas de café e chocolate amargo) e a Yebisu Half & Half (metade clara, metade escura). Aqui no Brasil se você mistura chopp claro com espuma escura chama-se chopp paulista. Se for chopp escuro com espuma clara, carioca. Cá no Japão o preço do copo grande gira em torno de 600 yenes e o menor de 400 yenes (entre 8 e 12 reais). Pra comprar é necessário trocar moedas numa máquina próxima.
Começou a farra da Yebisu, com muita cerveja saborosa sendo consumida, ainda que sem grandes nuances de aroma e sabor. Brindes e mais brindes se sucedem enquanto o papo volta naturalmente a ser nosso motivo de estar no Japão: o Corinthians.
Conto que na minha bagagem está uma camisa do meu pai que eu pretendo levar ao estádio no dia seguinte, para homenagea-lo. Me emociono lembrando do meu pai querido. Gente melancólica como eu chora com facilidade quando longe de casa. Muitas histórias familares vêem à tona nesta mesa de bar.
Afonso reitera não ter preferencias futebolisticas, mas lembra que seu pai, já falecido como o meu, era um corinthiano fanático e por isso ele vai ao jogo amanhã torcer em nome da paixão do pai dele. De certa maneira ele levaria o pai ao estádio, assim como o pai fazia com ele em sua infancia. Vozes embargadas e lágrimas se misturaram a mais uma virada antecedida por brindes. Mas a história mais intensa sai da boca do meu parceiro.
Quando Adney tinha seus 16 anos presenciou os momentos finais de seu pai numa UTI de hospital. O pai, corinthiano até a medula, sabia que naquela noite o Corinthians disputaria uma final de campeonato e insistia em ouvir o jogo, procedimento proibido naquele espaço do hospital reservado para enfermos em estado grave. Dias depois haveria um segundo jogo e durante a visita do filho, o pai novamente pediu que o deixassem ouvir no rádio o jogo do seu time de coração. Adney teria ido até o responsável pelo setor e argumentando sobre a gravidade do estado de seu pai e da iminencia de seu falecimento, pedindo que o pedido de seu velho fosse atendido. Naquela noite um radinho chegou às mãos do pai do Adney e ele pode ouvir seu time sagrar-se campeão pela última vez. Foi sua última noite de vida. O Timão amanheceu campeão e a família do Adney de luto. Foda!
Faltam palavras e sobram soluços, abraços e emoção. Histórias de amor e morte envolvendo o Timão, mano. Tudo isso vai pro estádio com a gente amanhã. Tudo isso é Corinthians.
Enxugando a água do rosto, fui até a lojinha e comprei algumas bugigangas e uma caneca da Yebisu, deixando 3120 yenes (82 reais) pros cofres do Museum of Yebisu Beer. Os outros fizeram o mesmo. Adney me presenteou com uma toalhinha azul muito legal. Thanks, bro! Deixamos o local sob uma garoa mais intensa. Lá foram os fumantes executar seu trabalho e Afonso se juntou a eles. Havia um velhinho fumando também. Estes smokers demonstram um prazer quase sexual a cada tragada. Passava de duas e meia da tarde e a fome tava apertando. Tínhamos 3 destinos: o tal templo, tb em Shibuya, a rua dos músicos e almoço. Como a rua dos músicos ficava fora de mão, resolvemos voltar pro metrô e nos dirigir pra área do templo, procurando algum “buraco” pra comer no caminho.
De volta ao metrô, nosso destino agora era o Meiji Jingu que é um templo Xintoista e existe desde 1920, no meio de um parque recheado de árvores e muito verde. Antes disso e já fora da Estação Harajuko onde descemos, o ronco dos nossos estômagos nos obrigou a mudar os planos e parar para o rango. Afonso olhou, analisou, refletiu e nos deu duas opções: um restaurante japonês meio caro ou uma boca de porco com comida chinesa barata. Fomos no mosca frita china. Ao entrar, não fosse pelo frio e pela quantidade de gente de olhos puxados, diria que estava num restaurante do centro velho de São Paulo. Um balcão em “U” com várias banquetas com gente comendo. Aos lados do “U”, mesas num tom amarelo-alaranjado-velho. Fomos até o fundo do estabelecimento, ao lado do pequeno banheiro e sentamos numa mesa de canto. Blusas, cachecóis e casacos pendurados na parede, lá estava a deliciosa água gelada de entrada. O cardápio, claro, era esperanto para nós. Afonso foi traduzindo a parada e meio que tirando os pedidos antes de chamar a garçonete. Dois foram numa espécie de arroz primavera com legumes. Adney foi nuns pastéis estranhos e eu e Afonso encaramos uma espécie de sopa de miojo com molho de tomate e muita pimenta, sem esquecer a sopinha salgada de entrada.
Afonso mandou seu “curi-curi-curi” ao que a garçonete assentiu “curi-curi-curi” e tava resolvido. O preço médio dos pratos era 900 yenes (24 reais).Uns foram de coca cola e eu de cerveja. Dei uma passeada pelo banheiro e identifiquei muito menos luxo que nos banheiros anteriores. Olha o Japão de verdade ai! Mas ainda assim, estava limpo e tinha água quente pro bumbum. Quando os pratos chegaram me apressei em pedir talheres no que fui repreendido pelo nosso guia.
-
Porra, vc não sabe comer com Hashi? Está no Japão e vai ter que aprender.
Ok, Felipão. Em Roma com os romanos. Chegaram os malditos palitos.Tava tudo muito quente, o que serviu pra amenizar a umidade e o frio da rua. Afonso me deu aulas rápidas e não é que eu consegui manusear as ferramentas? Após a sopinha abrideira, mandei o macarrão pra dentro e a cada “hashizada” fui ganhando mais habilidade. A pimenta é que era de lascar. Gente, minhas hemorróidas vão me lembrar deste almoço trash chinês nos próximos dias. Mas tava bem bom. O papo engatou, a bebida seguiu dando o tom e quando nos demos conta passava de 5 da tarde. O templo, porra!
Pagamos a conta, incluindo a do Afonso, o que o deixou um tanto aborrecido.
-
Velho, vc tá perdendo seu dia com a gente e vamos acabar pagando algumas contas pra vc. Pare de frescura e deixe rolar – argumentei.
Conta paga, Afonso convencido, simbora pro tal templo das 100 mil árvores. No caminho passamos por inúmeros corinthianos e por uma loja da Adidas recheada, enfeitada, decorada com bandeiras, cores e uniformes do Chelsea. Entramos ali e mandamos um “VaiCorinthians” mostrando nossos dedos do meio. Registramos nossa indignação com fotos na frente do poster do brasileiro Oscar. Não é do Timão, é inimigo. Todos torcem contra nós. Nós torcemos contra todos.
O frio, a umidade e o vento faziam minha garganta e nariz doerem. Eu estava quase mudo. O restinho de voz que saia mais parecia Lemmy do Motorhead rezando. O templo estava próximo. Disse Afonso que a primeira imagem seria uma espécie de túnel de arvores. Disse tb que era possivel comprar “papeizinhos” com a “sorte” no templo por algo em torno de 2 reais.
-
O imperador Meiji escreveu cerca de 100 mil poemas Waka, com 31 sílabas, com ensinamentos que você, e somente você, deve ler – completou mestre Yoda.
Afonso nos contou que uma das atrações do templo mais interessantes para bebuns como nós era uma coleção de barrís de saquê. Rezei para que estivessem cheios, mas não tive coragem de perguntar. Fomos nos aproximando do portão para o qual a entrada aparentemente seria gratuita e fomos surpreendidos: o parque (e por extensão, o templo) estava fechando. Nos demoramos muito no almoço e perdemos a visita que Adney tanto queria. Em compensação, dado o horário, também não poderíamos ir á rua dos músicos. Não que ela fosse fechar, mas por conta dos planos noturnos de nosso guia.
-
O ideal agora é tomar banho e cuida da assepsia escrotal (ele falou lavar o saco) – disse ele – para nos encontrarmos pelas 20h e irmos até um Izakaya em Shibuya.
Cumé, mano? Afonso esclareceu que Izakaya é o o que nós chamamos no Brasil de buteco “pé sujo” do Japão. E que Shibuya, além de ser um bairro, é o lugar onde fica o maior cruzamento do mundo. É o Times Square dos japoneses.
No fim das contas, Adney ficou sem templo e eu sem rua dos músicos. Não se pode ter tudo. Fomos juntos até determinado ponto no metrô e depois nos separamos de nosso mestre. No trajeto para o hotel encontrei uma loja com roupas roqueiro-macabras. Um conjunto de sobretudo e calça pretos lembrando uma espécie de Matrix obscura. Fiquei tentado a comprar. Mas como ser pobre é algo que nunca sai do nosso sangue, hesitei e declinei da aquisição. Quem sabe acho coisa do mesmo naipe em Nova Iorque (não achei!).
De volta ao hotel, banho tomado, saco lavado, simbora pra balada. Tabajara demonstrou interesse em nos acompanhar. Rochinha pulou fora. Além do Izakaya,  Afonso conseguira algumas cortesias para a festa de fim de ano da embaixada inglesa num outro pico. 1000 yenes de entrada com um drink incluído.
De volta ao Metrô, lá estava Afonso San. Novamente ele nos ajudou com as passagens. Mas desta vez algo saiu errado e tivemos que trocar nossos tickets junto ao funcionário local. Mesmo os mestres jedís cometem erros.
Chegamos á região de Shibuya. Há 3 saídas enormes da estação, todas abarrotadas de japas: Hachikô, Hachikô-mae Square e NHK. Bem, se Tóquio é um formigueiro humano, aquela praça é exatamente a região mais densamente povoada do lugar. Japas de todos os tipos e naipes, cabelos  e roupas, alturas e pesos. Passava pouco das 21h. O bairro é muito movimentado, com muitas lojas e intenso comércio, além da maior tela de cristal líquido do mundo. Shibuya Crossing é tb o cruzamento mais movimentado do planeta, com cerca de 3 mil pessoas atravessando a rua a cada abertura do semaforo. Ao todo passam por ali 3 milhões de pessoas/dia. Li na internet (e vi de longe) que há uma loja da Starbucks bem na frente do cruzamento que permite uma visão ótima do local. É tanta gente querendo fotografar dali que há fila e senha pra entrar no café. Eu tô fora! Ainda se vendesse cerveja, vá lá!
Afonso (sempre ele) nos conta que, quando há alguma comemoração de título esportivo, os torcedores vem pra cá e ficam tirando onda  ao atravessar a rua de um lado pro outro, sempre respeitando quando o sinal fecha, claro. Eles são japoneses, porra!
Mas o bairro tem mais histórias boas. O cinema tb reverenciou Shibuya com a gravação de cenas do filme “Encontros e Desencontros”, aquele do Bill Murray e da delícia Scarlett Johansson, o segundo filme dirigido por Sofia Coppola, de 2003. Este foi o primeiro filme que me despertou interesse em conhecer o Japão. E olha eu aqui, minha gente!
Andamos um pouco sob friagem intensa e paramos ao lado da estátua de um cachorro para aguardar mais amigos do Afonso. A história em torno deste cão, mais uma lenda local, deu origem ao monumento que está à nossa frente e ao filme “Sempre ao seu lado”, de 2009, com Richard Gere. Baseado em fatos reais, o enredo é sobre a lealdade de um Akita que diariamente acompanhava seu dono até a estação e o recepcionava na volta do trabalho. Eis que, numa daquelas tardes, o dono não regressou e por 10 anos o cão o aguardou sua volta pacientemente, dia após dia. Eu não vi o filme, mas parece uma história realmente tocante. Au, au,au! E tá um gelo danado! Não há minhocão ou segunda pele que segure este frio dos infernos. Os amigos do Afonso vão chegando. Primeiro um brasileiro que tb tá aqui por causa do timão. Ele é de Santos. Na sequencia chega um japa argentino chamado Andres com a namorada e uma amiga dela, ambas japas genuínas. Tá faltando mais um mexicano. A temperatura segue caindo e eu sugiro que nos movamos logo prum bar pra nos abrigar da glaciação em andamento e começar a beber. Ok. Estamos nos movimentando. No momento somos 8.
Se vc imagina ter visto luminosos e luzes em grandes cidades e nunca esteve em Shibuya, vc não sabe de nada. É coisa louca. Fico imaginando por que nosso Anhangabau não é iluminado e colorido assim. Um quarteirão. Frio. Dois. Por que não paramos aqui mesmo? Três quateirões. Vamos entrar em algum lugar, caralho. Opa, é aqui. Descemos uma escada. Uma portinha fechada. Entramos e damos com um local de pé direito relativamente baixo, bastante escuro, com luzes específicas sobre mesas compridas, pra 6, 8, 12 pessoas. Agora nosso grupo tem mais gente falando japonês. O maitrê nos informa que não tem lugar pra sentar, mas que vai vagar uma mesa em poucos minutos. Os fregueses devem ter pedido a conta e estão em processo de saída, eu suponho. Não! Afonso me explica que o sistema aqui é pagar 2500 yenes para beber o que quiser e comer duas porções cada. E a permanencia máxima é de 2 horas. Bateu o horário, vem a conta e vc é convidado a sair. Se manda, vagabundo! Caraio! Bebedeira com hora marcada. Tá certo. É muita gente com sede e não tem bar suficiente pra beber, imagino.
Saímos pra escada que da acesso à rua, expostos novamente à era do gelo japonesa de fim de ano. Mamutes, tigres de dente de sabre e preguiças estão na fila atrás da gente. Minha garganta dói e se eu parasse de falar, beber gelado e dormisse um pouco é provavel que a situação melhoria. Mas qual nada! Tô na “never ending ballad” desde que sai do Brasil. Estamos instalados nos degraus. Opa, o maitre tá nos chamando. A mesa liberou e simbora beber. Vamos sentando e a separação entre uma mesa e outra é feita com aquelas tipicas cortinas japonesas de rolo. Ficamos eu e Tabajara numa ponta. Adney e Jorginho pelo meio. Tem gente pra caraio no bar. Só japa. Quem acha que o povo japonês é contido e prima pelo silencio deveria vir a um bar destes sacar o falatório.Tem toalhinhas quentes pra gente aquecer as mãos. Aqui no japão as toalhas são quentes e a comida fria. Eh, eh, eh! Começo com cervejas. As porções são tiragostos. Não vou encarar estes tentáculos de polvo. Peço uma porção de pequenos peixes fritos, como manjubas. Tá muito bom. Tô comendo de hashi. Uhu! Andres tá aqui á minha frente, junto com a namorada. Gasto meu portunhol podre. Papo bom. Casal gentil. A cerveja corre numa velocidade inacreditável. Fala-se tudo quanto é idioma. Derrubei o guarda chuva da mesa ao lado. Levantei a cortina e mandei inglês vagabundo pra explicar o incidente. Os japas riram. Opa, chegou o mexicano Hector Moreno. Este é latino. Fez uns comentários sobre nós. É meio metido a malandrão. Tabajara solta a pérola da noite
-
Qual es la nacionalid deste gajo?
Quase me cago de rir. Adoro esta torre de babel. Muitas, mas muitas cervejas depois, tá dando a hora de desocupar a mesa. Mas já? A cerveja era pilsen comum, mas tava tudo muito divertido. Pagando.  A galera fazendo contas e mais contas. Simbora. Pra onde agora, mestre Afonso? Tokyo Salon Lounge Bar (B1F Las Chicas 5-47-6 Jingumae), ali mesmo em Shibuya, onde rola uma British Bonenkai, que não é uma reunião de bonecas inglesas, mas uma festa de fim de ano da embaixada britanica.
Chuva fina nos espera cá fora. Tá todo mundo breaco e ninguém liga. Fotos e mais fotos. Um mexicano, um argentino, duas japas e cinco brasileiros caminham alegremente movidos a alcool nas esquinas geladas de Tóquio. De repente saímos da avenida principal e passamos a andar por um becos simpáticos. Casas aconchegantes, mas com aquele tamanho padrão da cidade. Não há perigo. Não há crimes aqui no Japão. Peço um minuto pra mijar numa moita no que sou seguido por mais alguns. A bexiga estava a ponto de explodir.  Até por ser de noite, por ser um lugar desconhecido e eu estar meio breaco, fica dificil sacar detalhes da paisagem. Opa, chegamos à boite. Afonso distribui convites que além de nos darem acesso ao local, liberam um drink. A boite fica na parte de baixo. Aqui em cima tá mais com cara de restaurante. Descemos degraus de madeira abaixo. Olha que tem uma galera aqui! Vários ingleses exibindo orgulhosamente sua bandeira. Um ou outro com camisa do Chelsea. Direto ao balcão. Opa, tem Brewdog, cerveja escocesa da melhor qualidade. Simbora beber uma Punk IPA, lúpulo frutado radical, 6% de teor alcóolico. Aqui em torno do balcão estão alguns bebuns. Meu lugar! Mais pra lá tem uma “lounge” com poltronas, mais luz e menos barulho. Através desta porta atrás de mim chegamos à pista de dança. Caraio, olha o Rochinha e o Dalmir ai. Não é que os caras conseguiram se achar na noite de Toquio. Uhu! Dalmir, com seu perfil careca, negrão e corinthiano é o centro das atenções e dos flashs na pista. Um DJ Japa tá tocando música eletronica. Pé no saco.Volto á área do bar e peço mais um drink. 1000 yenes cada. Uma japa meio balzaca se aproxima e pede pra tirar uma foto minha. Tamos todos uniformizados de Corinthians, claro. Ela é muito balzaca. Mais velha que o Monte Fuji. Rapidamente os brasileiros se juntam e começamos a mandar gritos de guerra do nosso time. Balburdia em ação. Só espero não ser expulso daqui hoje. Ou sim! Pelo menos não misturei destilados á catarata de cerveja ingerida. A japa que tirou a foto me pede pra lhe pagar um drink. Ok. Uma taça de vinho. Papinho estranho. Acho que tá me cantando. Me desvencilio dela e volto pra pista. Volto pro bar. Volto pra pista. Banheiro. Mais Brewdog. Agora uma BrewDog 5 a.m. Saint, uma american amber ale com 5% de  teor alcóolico. Substituição na pista: entrou um DJ inglês. O cara tá tocando Cure, Smiths, anos 80 na veia. A pista enche. Todo mundo bebum e dançando. Mais cerveja. To cansado. Vou pra Lounge. Conheço uma inglesa loira e gordinha. Começamos a conversar sobre futebol. Ela é torcedora do Chelsea. Sem violencias ou agressões gratuitas. Ela é prepotente. Diz que vão estraçalhar a gente. Chamo a galera e começamos a gritar timão, eh, oh na orelha dela. Estamos, pasmem, em maioria no bar. O DJ inglês saiu da pick up e veio beber algo. Ele é Manchester United e se une a nós gritando “fuck Chelsea”. Uhu! A balada tá miando. Fuck you, Chelsea! Pra onde agora, Afonso? Ah, tem um bar com música eletrônica aqui perto? Hum! Eu não curto, mas a esta altura, qualquer paixão me diverte. Bora!
Mais caminhada pelas ruas molhadas. O frio nem tá tão grande. Estou agasalhado com cerveja. Muita. Agora somos 11. Mais algumas voltas à pé e chegamos a uma espécie de praça de pedra. No cantinho tem um lugar pequeno, tb de pedra. É ali. The OATH.  Afonso  diz que adora frequentar  o lugar e pede pra gente não arrumar confusão. Seremos algum tipo de arruaceiros? Sim! Eh,eh,eh!
A gente chega chegando. Vou direto pro bar e pego mais uma cerveja. Qualquer uma. Não tem Brewdog. O povo quer dançar. Eu não gosto de dançar. Procuro uma mesa no fundo, perto do banheiro. Tô cansado. Tô zuado. Mas o povo tá dançando. Pra lá, pra cá. Quando é que esta festa sem fim vai acabar? Vou lá pra fora. Parte da galera tb. Uma foto na porta. Outra foto. Ameaço tirar as calças. É brincadeira, Afonso! Entramos de novo. Mais dança. Chega? Vamos embora? Ou vamos para mais uma saideira?
- S-a-i-d-e-i-r-a!
Mais caminhada. Sou um zumbi bebum nas ruas do país do sol nascente. Mas ainda tá de noite. Duas? Três da manhã? Quatro? Caraio. Já, já é hora de entrar no busão e ir pro jogo.  Só mais uma cervejinha, caraio! O bar chama-se The Griffon. No subsolo. Mais cerveja. Agora vou nas clássicas inglesas, Old Speckled Hen,  New Castle. Tô chegando num limite alcoolico perigoso. O bar é um pub clássico inglês. Mais escuro que aquele das cervas artesanais do primeiro dia de Japão. Tô falando pelos cotovelos. Eles não me entendem. E nem eu a eles. Alguns vão se mandando, pegando taxis. Opa, ganhei cartão de sócio do bar. Acho que vai ser dificil me tornar um frequentador assíduo. O bar é ótimo, mas é meio longe da minha casa.
No fim somos 4. Chega? Táxi! Só podem ir no máximo 3 por carro. É lei. Adney e Jorginho pegam um . Eu e Afonso vamos em outro. Afonso sentado na frente. Eu atrás. O carro parou no semáforo. Peço que Afonso faça perguntas ao motorista. Sobre a vida dele. Sobre como é ser táxista em Toquio. Meu pai foi taxista. O motora está meio reticente. Ele usa uma máscara sobre o rosto. Me olha de rabo de olho de maneira estranha. Tem um nariz avantajado sob a máscara. Coisa pouco comum, japonês narigudo. O cabelo tb é meio castanho, com a testa alongada. Um perfil quase europeu. Estranho, mesmo! Afonso apagou. E sem ele não há tradução simultanea pra seguir a entrevista. Paramos de novo. Parece que ouvi algo familiar. O motora falou Corinthians. Mas não foi com  “aquela” pronuncia japa. Meio vesgo pela bebedeira, olho pra ele que aguarda a abertura do semáforo sob a máscara branca.
-
O que foi que vc disse? Mando em português
Ele responde. Porra, como é que o cara entendeu meu português? Que diabo é isso? As ruas estão desertas. Ele está de luvas. Tira uma delas e estão faltando o dedo mindinho e o seu vizinho. Dedos amputados. Isso é coisa da Yakuza. O cara é da máfia japonesa. Puta merda. Ele abre o sobretudo, vira pra mim e me mostra: está coalhado de dinamite no seu peito, no ombro. É uma porra de um homem bomba japa. Ele arranca a máscara. É a cara do Rogério Ceni.  Ele me olha com um sorriso assustador.
-
Agora vc entendeu. Vamos explodir o hotel onde está hospedado o seu time. Não haverá amanhã nem pra vc e nem pros seus jogadores. O japão é do tricolor. Nunca vai ser de vcs – berra ele
-
Mas, Rogério... o Corinthians tá em Yokohama, não em Toquio! – eu argumento
Ele não responde. O carro arranca e começa a atravessar cruzamentos a toda velocidade. Afonso está desmaiado no banco da frente. Eu to muito bêbado pra fazer alguma coisa. Tento alcançar a garganta do cara. Postes, viadutos, prédios, luminosos, tudo passando como num flash. Eu vejo a  fachada iluminada de um estabelecimento à nossa frente. Hotel Sheraton . Há pessoas na porta. Há corinthianos com bandeiras fazendo vigília. O time está mesmo ali. O carro avança. Rogério cover urra!  Ele vai explodir a mim, aos jogadores e a todos os sonhos corinthianos. Bum!
-
Acorda, Paulão. Chegamos ao hotel – diz calma e embriagadamente Afonso.
Mais um. Mais um maldito pesadelo. Desta vez foi um sãopaulino da Yakuza. Quando isso vai parar? Me despeço de Afonso e caminho tropego até a portaria. Ele diz que nos encontrará no estádio, amanhã. Hoje. Daqui a pouco!
6 da manhã. Hoje é o dia mais importante da minha vida de torcedor. Eu deveria estar com todas as energias em cima, mas tô um caco. Sem voz, sem força e zuado. Vai ser um longo dia de ressaca, ansiedade e apreensão. Vai ser um dia pra não ser esquecido nunca mais.


-

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Treme Japão - Capítulo 6 - Ressaca maior que Godzilla



Japão (ou Plutão?) - 14 de dezembro de 2012 (quando?) –  Sunshine City Prince Hotel (heim?) – Tóquio (se vc tá dizendo...) – Sexta feira (?)

Ai!Aaaiii! Que tipo de lutador de sumô me atropelou? Gente! Que ressaca é essa? O relógio? Passa de meio dia. Adney está adernado e mudo. Morreu, certamente. Eu não tô muito melhor! Enjôo. Dor de cabeça. Sucumbirei? É isso!  É chegada a hora da despedida. É fato que este meu corpo, receptáculo de tantas substancias tóxicas, não suportará este último golpe alcoolico em terras do sol nascente. No atestado de óbito estará escrito: morreu vítima de intensa e descontrolada bebedeira. Desafortunadamente não verei meu time na final do mundial interclubes de Yokohama no domingo. Deixarei este planeta vil ainda neste amaldiçoado dia 14 de dezembro. Dentro em breve os vermes estarão fustigando minhas carnes embebidas em álcool. Sim, Jim Morrison, this is the end. I’ll never look into your eyes, again!
Ameaço levantar-me, mas o corpo não responde. Prostro-me no leito e aguardo a visita da morte. Acabou! Café da manhã já perdemos faz tempo. O que estava planejado para esta manhã, mesmo? Nada! Morrer!
O relógio. Uma da tarde! Adney segue na mesma posição. Apenas um ou outro suspiro, possivelmente o final, sai-lhe da carcaça fétida. Arrasto-me até o banheiro. No espelho a imagem é tenebrosa. Serei mesmo este espectro branquelo que se reflete? Vampiro tequileiro. Ébrio do saquê. A banheira. Isso. Vou enche-la e deitar-me aqui.  E assim será encontrado meu corpo: nu na banheira japa que não comporta meu tronco e minhas pernas esticadas. O quê? Um barulho no quarto. Adney revira-se na tumba? Peço ajuda. Ele grunhe! Peço que traga a máquina fotográfica e registre este meu derradeiro momento. Ele fotografa a tétrica cena e volta pra cama. Ninguém vai sair vivo deste quarto hoje.
Passa-se uma hora e meu corpo mergulhado na água tépida dá sinais míseros de recuperação. Preciso comer alguma coisa. Com o dedão do pé retiro a tampa do ralo e a água vai se esvaindo. Dentro em pouco encontro-me congelando á temperatuda ambiente do banheiro. Toalhas. A privada. Fezes. Alívio mínimo. Sensação de terremoto. Será Neymarzilla novamente? Não! É a tontura resultado da noite de esbórnia.
De volta ao quarto convenço meu parceiro de infortúnio e cefaleia a sair daquele torpor e procurar um restaurante no shopping anexo. Com movimentos lentos e mal coreografados, nos paramentamos e saimos hotel afora, caminhando até o andar dos restaurantes no shopping. Nosso corpo ora parece pesar uma tonelada, ora fica sem peso, como se estivessemos na ausencia de gravidade lunar. Miami Garden. Massas. Na vitrine, como em quase todos os reaturantes deste shopping, pratos cenográficos para ilustrar o que se pode comer. Pode ser aqui. Macarrão à bolonhesa? Sim. O copo dágua tradicional vem á nossa presença com duas pedras de gêlo. Água. Santo remédio. Sorvemos o precioso líquido e solicitamos mais. Coca Cola? Sim! Tudo. Adney aventa a possibilidade de pedir uma cerveja. Ele está melhor que eu. Eu bebi mais. Eu sempre bebo mais. Négo com vêemencia. E repugnancia. E ânsia! A comida não desce. Rodrigo nos encontra no restaurante. Diz que precisa tirar fotos na frente do restaurante Bambi, pra sacanear os sãopaulinos. Adney diz que tb quer ir. Eu não quero nada. Quero perecer.
Almoço finalizado. Edu surge junto com Rodrigo. Jorginho. Os moicanos vão aparecendo. A idéia é ir de metrô fazer compras na Santa Ifigenia deles. Até que após a ingestão do macarrão um pequeno fio de vida surge dentro de meu ser. Não é todo dia que se vai a Tóquio. Preciso reagir. Adney diz que andou de metrô no dia anterior e que é só pedir informações na portatia do hotel e sair á caça das bugigangas. Simbora. Uma rápida passada no quarto pra pegar mais grana e vamos nós. Tabajara e Rochinha tb vão.
Meu objetivo é musical e se chama gaita de boca. Estou á procura de gaitas Lee Oskar ou alguma japonesa de qualidade. Vamos caminhando em direção à Ikebukuro Station num trajeto semelhante ao realizado na bebedeira do dia anterior. O ritmo é que é bem mais lento, uma vez que não estamos movidos a álcool. Nosso destino é Akibahara/Shinjuku.
O metrô é uma cidade sob o chão. Milhares de pessoas em movimento continuo, dezenas de entradas e acessos a metrô e trem, bilheterias, barraquinhas de guloseimas, lojas e gente demais. Estamos sob a terra, dentro do formigueiro. O mapa do metrô parece uma fórmula matemática ou coisa parecida. As malditas arvorezinhas, luzes piscantes, linhas, circulos. Me parece, pelo menos aqui na região de Tóquio onde estamos, haver dois ou três rodoanéis ferroviarios. Então vc entra no metrô e ele dá uma volta por 20, 25 estações, retornando ao mesmo ponto de onde saímos. Metrô circular. Estamos indo. A ressaca dá uma pequena trégua e seguimos observando e comentando sobre os japoneses e seu país. Vez por outra uma mocinha interessante passa por nós, carregando consigo nossos olhares de rapina. Estamos ressacados, mas somos homens. Ou meio-homens. Há esta lenda de que os japas costumam assediar as moças nos vagões e por isso a maioria dos homens faz questão de viajar segurando nas alças de segurança, mantendo mãos e braços bem visiveis. Uma denuncia de assédio promovida contra um estrangeiro pode mandar o cidadão embora daqui imediatamente. Até que estamos nos guiando bem. Pronto. É aqui. E agora? Pra qual lado? Um questionamento dentro do próprio metrô e o policial nos indica a  região que poderá, aparentemente, suprir todas as nossas necessidades de compra.
É divertido andar nas ruas de uma cidade desconhecida. Tudo é motivo de observação e comentário. E como tem corinthiano no local, minha gente! Um grupo grande surge à nossa frente e nos indica o tal Yodobashi-Akiba, nosso shopping horizontal. Sim, sim, #VaiCorinthians!
Na fachada do prédio, muitos luminosos com marcas mundiais: sandisk, wimax, nikon, sharp, cannon, bufalo, brother, Apple, regza. E,claro, muitas arvorezinhas.
À entrada combinamos nos reencontrar uma hora depois, na mesma porta. A tal loja de departamentos tem muitas portas. Isso vai dar merda! Vou caminhando sozinho e tento perguntar onde posso encontrar instrumentos musicais ali. Curi-curi-curi ! Ninguém entende quando eu falo “Harmonica” ou “musical instrument”, mas compreendem o gesto de levar as mãos á boca como se eu tocasse. Dois andares acima? Não, aqui não vende gaita? Sei lá. Vou andando. É uma loja de departamentos com absolutamente tudo. Brinquedos pra Maju? Brinquedos pra crianças? Baratinho, né? O que mais? Videogames? Aparelhos eletronicos. Tudo, mesmo! Ô, ô...dor de barriga! Me dirijo apressado ao mictório mais próximo e coloco meus meninos pra nadar. O painel que aciona a água quente é mais simples que do hotel. Só tem um tipo de jato. Claro, é um banheiro masculino. Idiota! Este jatinho dágua quente no toba é muito agradável. De volta às compras. Acho que não tem loja de instrumentos musicais, mesmo. Já deu a hora de sair? Não! Mais um andar. E não é que bem na frente da escada rolante tem uma loja de pianos e teclados. Começo a perambular pelo local e encontro um “Ukelele Flying V” por cerca de de 16 mil Yenes. Cavalo iria gostar. 16 mil yenes, vamos ver, 200 e poucos dolares e 400 e poucos reais. Não tá caro, mas não é pechincha. Vai ficar pra próxima, Cavalo. Sorry, cumpadi! Vou até o balcão e encontro, finalmente, gaitas de boca. Pergunto da Lee Oskar e tá caro. Mas tem uma japonesa bem parecida que tá em conta. Preciso em dois tons: ré e do. Infelizmente eles só têm uma em ré. Ok, vou levar essa.
Olha o Edu perdido ali. Descemos juntos e passamos a esperar o resto do grupo. Chegam todos, menos Rochinha. Adney tá com fome  e vai comer uns trecos empanados. Minha garganta doi com o frio. Voz? Só um fiozinho. O nariz está todo ferido com a secura do ar. Fumantes executam seu trabalho tabagista na área demarcada da calçada. Muitas bikes estacionadas nas calçadas. Minhas pernas doem de tanta andança chapado ontem. Não pode sentar no chão. Cadê Rochinha? Edu vai procura-lo. Sumiu. Rochinha reaparece e agora é Edu quem não volta. Adney voltou. Vamos dar um rolê no quarteirão pra passar o tempo. Uma churrascaria brasileira. Tem a foto de um gorila. Será que servem carne de gorila? Ou só pode entrar se for gorila? Estarão nos chamando de Gorilas?Tá me dando fome. Opa, tem uns puteiros de gueixas na área. Será que tem gorilas no puteiro? Vamos andando e notamos alguns restaurantes oferecendo o tal sushi de Maguro que o Afonso falou. De fato, o peixe se “deita” e sobra largamente sobre o arroz papa. Voltamos ao local do encontro. Edu reaparece. Vamos embora. Mais metrô. Formigueiro por todo lado. Desta vez tamos em horário de pico e surgem os tais empurradores, funcionários contratatos pra “socar” as pessoas dentro dos vagões e fechar as portas. Sardinha em lata. Me lembro da hora do rush em sampa. Caminho inverso em andamento. Não consegui comprar as gaitas que queria. Parece que há uma rua só de instrumentos musicais em Tóquio chamada Meidai-dori. Mas fica longe. Tentarei ver isso amanhã com a ajuda do Afonso. Caraio! Tínhamos marcado de sair com o Afonso hoje á noite pra assistir uma banda de blues. Consulto meus parceiros e tá todo mundo zuado da noite passada. De volta ao hotel, Adney liga pro nosso host e pede a ele que cancele o programa. Afonso se mostra feliz com o cancelamento, pois tá atarefado com seus estudos. Marcamos um encontro pelas 11h da manhã no nosso hotel no dia seguinte, sábado, para ai sim dar um longo rolê. No programa, diz Afonso, uma visita á fábrica/museu da cerveja Yebisu, um templo para Adney que não foi com a gente ontem, a rua dos músicos pra mim, depois banho no hotel pra tirar o budum e balada noturna incluindo bebedeira num butecão típico japonês, depois festa de fim de ano promovida pela embaixada inglesa (uau!) e por ai vai. A noite nunca tem fim aqui no fim do mundo. E com uma previsão de programa como estas, precisamos desta noite bem dormida pra encarar a tour Afonseana do dia seguinte.
Tô com fome. Dou um pulinho solitário no shopping e fico rodando, sem saber onde comer. Miami Garden de novo, não. Rodo, rodo e nada. Passo por um empório com muita cerveja japonesa. Preciso vir aqui antes de ir pros States. Jantar? No fim, encaro uma espécie de hamburguer com molho, batata cozida e arroz papa no famoso Bambi. Sim, água gelada de entrada. Não, nenhum sãopaulino por perto. Coca Cola. Um missoshiro delicioso pra abrir o apetite. A decoração interna faz referencia a alces e veados, numa alusão clara ao personagem de Walt Disney. Tai a razão do nome pra vc que achava que o restaurante havia sido fundado por sãopaulinos radicados no japão. Chega. Não atingimos nem 9 da noite e meu corpo implora pela cama. No corredor encontro Rivelino, o cozinheiro. Ele me diz que foi até o monte Fuji e que foi uma merda. Não viu nada a não ser Andrés Sanchez, ex-presidente do Timão e  celebridade corinthiana. Me diz que foi a um restaurante. Me dá detalhes do que comeu e não gostou. Vomita 30 mil palavras em 1 minuto. Quando ameaço contar algo sobre a minha noite anterior ele vira as costas e vai embora sem mais nem menos. Doutor gentileza. Volto ao quarto do hotel e dou com Jorginho e Adney preparando uma ida ao shopping para tirar foto na frente do restaurante galheiro e comer mais alguma coisa. Peço a Jorginho para usar seu skype e consigo acessar minha casa. Os olhos se enchem de lágrimas ao conversar com Dex. Maju sobe no seu colo e aí as lágrimas são incontroláveis.
-          Oi, papai...tô com saudade...
Maju ensaia poucas palavras e eu tô soluçando aqui do outro lado do mundo...Lá é de manhã. Lá é sexta de manhã. Eu to cerca de 12 horas á frente do tempo brasileiro. Meu dia ressaqueado acabou e o deles ainda tá começando. E eu não morri. Ai, que dor no coração. Mil beijos, meus amores. Ainda faltam 8 dias preu voltar. Ainda vou pra Nova Iorque. Ainda serei campeão do mundo. Fim de transmissão. Hora de rastejar pro leito e apagar antes que o castor roncador volte e transforme este quarto num pandemonio de decibéis sem controle.

TREME JAPÃO – CAPÍTULO 5 – BEBEDEIRA INACREDITÁVEL DO OUTRO LADO DO MUNDO



Japão - 13 de dezembro de 2012 –  Sunshine City Prince Hotel – Tóquio – Quinta feira

Acordei pelas 8h30 classificado para final do mundial interclubes e iniciei meu processo de assepsia matutino. A ideia era tomar café e estar no busão pelas 10 e pouco pro city tour que incluía tb almoço. Adney ficou na cama. Nesta quinta feira ele, que trabalha com seguros no grupo SBT, tem um encontro com o povo da seguradora Tokyo Marine. Ao que parece será um jantar de boas vindas, comes e bebes. Como o city tour prometia se estender até o fim da tarde, não daria tempo pra fazer as duas coisas. Apartei-me do meu parceiro e mergulhei no café da manhã macarrônico, com salsicha alemã, peixe defumado e todo tipo de mistura. Meu intestino que se vire. No saguão do café estava toda a gang. Praticamente todo mundo vai no tal city tour que inclui o Palácio Imperial, almoço típico, templo budista, compras e uma torre chamada Tokyo Skytree com 634 metros. Café finalizado, subi pra dar aquele barro enquanto Jorginho foi fumar. Quando cheguei na porta do busão notei que havia novidades! Incomodado com a quantidade de agitadores por metro quadrado que nosso ônibus reunira no dia anterior, Mohamed realizou alterações e distribuiu os “maus elementos” pelos outros veículos.
Foi assim que conheci uma dupla impagável. Seu Adilson, com idade mais avançada, e seu amigo Roberto.
- Roberto...vc fica pegando no meu pé porque eu to bebendo...tá parecendo minha mulher!
Seu Adilson tinha um sotaque italianado que parecia ter vindo da Mooca. Roberto só ria das peripécias do parceiro. E olha que daquele dia até a final seo Adilson ia aprontar poucas e boas, uma vez que a distancia temporária da esposa fazia aumentar e muito sua sede. Que figura! Tava igual pinto no lixo! Neste mesmo ônibus onde fomos alocados eu e Jorginho, havia agora vários casais, que parecia ser garantia de mais calmaria. Rivelino, o cozinheiro cearense, tb tava com a gente. Como se tivesse sido tolhido nas suas manifestações no dia anterior, Rivelino estava com o falador aberto. Começou a contar sobre seu trabalho no Brasil, sobre seus colegas de cozinha que torcem para outros times a quem ele gostaria de sacanear ao vivo naquele momento. Comentou sobre a demora no atendimento em algum restaurante em que estivera em Tokyo e disse que se fosse no Brasil o cozinheiro era capaz de apanhar, elogiando a educação e a paciência orientais. Antes mesmo do ônibus sair e falando pelos cotovelos, Rivellino fez questão de mostrar uma tatuagem com o brasão da Republica Popular do Corinthians que tomava suas costas quase que por inteiro. Lendo sobre o assunto num livro de Anthony Bourdain, descobri que cozinheiros são todos malucos, chapados e incontroláveis e é raro que um deles não tenha tatuagem. Ao avistar um velhinho japonês atravessando a rua, Riva emendou mais uma pérola:
- Tem muito senhor de idade aqui no Japão, não é? É que aqui demora um pouco pra pessoa morrer, né?
Figuraça. Simbora.
Nosso primeiro destino era o palácio imperial. Yuki foi dando suas informações turísticas enquanto a gente ia observando o Japão do lado de fora da janela do ônibus. Segundo ele, uma lei de 1947 acabou com os poderes do Imperador enquanto chefe de estado. Ou seja, hoje em dia ele tem uma função decorativa. Não apita nada! O atual chama-se Tsegu Akihito e é filho do imperador Hiroíto. Está no cargo desde 1989, quando seu pai morreu. Dizem as boas línguas que Akihito, quando jovem, era todo malandrão e gostava de quebrar regras tradicionais da monarquia como fumar em público, além de ter casado com uma plebeia, Michiko Shoda. Não sei se entendi direito, mas parece que Yuki, no seu portunhol nipônico, disse que o imperador só dá as caras em público duas vezes por ano: uma em seu aniversário, no dia 23 de dezembro, e outra no ano novo, 2 de janeiro. Claro que um de nós se apressou em perguntar se ele não poderia aparecer no estádio pra ver o Timão ser campeão. Yuki, sempre paciente e bem humorado, observou que seria difícil que isso acontecesse. Enquanto nosso guia ia despejando seus conhecimentos sobre o  império, Darth Vader, Obi-Wan Kenobi e Jar Jar Binks,  alguns combinavam ir ao estádio de Yokohama naquela noite pra ver Chelsea e Monterrey. Por outro lado, informações vindas do Brasil davam conta que em um jogo que não teve segundo tempo (por conta de uma pancadaria com o time adversário), o São Paulo teria se sagrado campeão da Copa Sul-Americana. Isso, entre outras coisas, faria com que em 2013 eles nos enfrentassem pela Recopa sul-americana, que reúne o campeão da libertadores e o campeão da própria sul-americana. Óia os bambis no nosso caminho, aeh! Ao saber da vitória são-paulina comecei a conjeturar que, caso fôssemos campeões domingo (e íamos ser, porra!), este título deles perderia muito de sua importância. Além do mais, lembrando do primeiro jogo, na Argentina, e do fraco...fraquíssimo...paupérrimo futebol apresentado pelo Tigres, conclui que não havia outro resultado possível que não a vitória do São Paulo. A verdade é que os caras estavam se roendo de inveja da gente e iriam valorizar o título recém conquistado ao máximo. Mas bastava a gente fazer nossa parte no domingo que eles iam simplesmente ser esquecidos. Mais lenha na fogueira da rivalidade, rapaziada!
Voltei dos meus devaneios futebolísticos com a imagem de uma imensa roda gigante circundada por uma sinuosa montanha russa, ambas localizadas sobre um prédio. Cumé? Que coisa mais estranha! Ao lado deste parque de diversões aéreo, um grande domo. Yuki se apressou em informar que  aquele era o Tokyo Dome, um ginásio de esportes com capacidade para 55 mil pessoas, onde o Yomiuri Giants, o time de baseball de Tóquio, manda seus jogos. Ao lado do Tokyo Dome fica justamente o Tokyo Dome City, uma espécie de shopping center com o tal parque de diversões inserido no alto. Além de jogos de baseball, o tal ginásio, em funcionamento desde 1988, tb foi palco de jogos de futebol americano, lutas marciais e shows musicais. Sabe quem já  se apresentou no Tokyo Dome? Madonna, Beyoncé, Mariah Carey, Britney Spears, Rihanna, t.A.T.u., Linkin Park, Avril Lavigne e Guns N' Roses.  Mas o recordista de shows aqui é ninguém menos que Michael Jackson. Ele fez 21 apresentações no local. É mole?
Segue o enterro. Estamos  ao lado de uma grande praça onde a quantidade de ônibus estacionados indica a proximidade de algum local de grande interesse turístico. É isso aí: senhoras e senhores, eis o palácio imperial. Seu nome em japonês é Kôkyo e está localizado no centro de Tóquio, no bairro de Chyoda, que quer dizer “campo de milhares de gerações”.  Tb conhecida como Castelo de Edo, a residência da família imperial tem praticamente o mesmo tamanho do Central Park.
Apesar da existência de um sol tímido a nos iluminar cá fora, o vento frio deu o tom da caminhada assim que pusemos os pés no chão da praça coalhada de pombos. Havia tb excursões com muitas crianças pra cá e pra lá. A todos nós cumprimentávamos com “Vai Corinthians” e a receptividade era cada vez maior. É tudo nosso, mano!
Voltemos ao mocó do imperador. Destruído pelos bombardeios da 2ª guerra mundial, o palácio foi reconstruído em 1968. Tivemos acesso ao portão principal e ao fosso que contorna a construção e ali tiramos algumas fotos. Imperador mesmo que é bom, ninguém viu. Nem sequer uma princesa, uma aia, nada! Yuki apontou um grande edifício do outro lado da rua dizendo que era dali que, depois do fim da segunda guerra, os americanos comandavam o Japão. Alheio ao aspecto sangrento da presença americana no Japão, me deu uma sede e tentei comprar uma cerveja numa barraquinha da praça. Não tinha cerveja. Pensei em comprar água. Mas preferi esperar pelo almoço típico japonês que seria a próxima atração daquela tour. Não gosto de gastar dinheiro com água.
Voltamos pro busão e nosso destino seguinte era justamente o bairro dos eletro-eletrônicos, Akihabara, onde aconteceria o tal almoço típico. Porra, será que agora teríamos mesmo que comer as malditas enguias? Será que o Rivellino não podia fritar um ovo pra gente escapar dessa?
Rodamos pouco mais de 15 minutos pelo centro de Tóquio. Do lado de fora da janela muitos japoneses de máscara, muitas japonesinhas com pernas tortas mas, acima de tudo, muita gente. Muvuca geral. O ônibus estacionou precariamente numa esquina e tivemos que desembarcar com rapidez. Pelo que entendi, o restaurante ficava no segundo andar de um edifício comercial, cujo acesso só era possível por elevador. Embaixo, na nossa frente, uma loja de roupas e bugigangas pseudo típicas japonesas com preços pouco saborosos. Ainda que fosse um grande elevador, dada a quantidade de pessoas, foram várias e várias viagens até que chegássemos em cima. Podia até ser um restaurante típico, mas o sistema era mesmo o conhecido self service, com muitas panelas e pratos dispostos em mesas centrais e os fariseus from Brasil desfilando ao redor. De fato, as garçonetes e funcionários da casa vestiam quimonos marrons. A decoração tb era bastante oriental aos meus olhos. Mas ninguém tirou o sapato! Depois, quando fui ao banheiro, descobri nos fundos do restaurante salas com  aquelas mesas mais baixas e ambientes onde o povo, ai sim, tira os sapatos para comer. Nós comemos calçados mesmo! No cardápio, muitas verduras, algumas de visual estranho, batatas, sopas, missoshiro, arroz papa, molhos, carne ensopada (será de enguia?) e empanados em geral. Hashi? Não, garfo e faca! Não tive problema em provar nada, mesmo a carne ensopada. No pacote self service estavam incluídos, aparentemente à vontade, refrigerantes, chás, sucos e água. Aliás, assim que sentamos à mesa a linda garçonete serviu a cada um de nós um copo d’água com gelo. Este fato se repetiria em todas as refeições públicas no Japão: como cortesia, água gelada para abrir o apetite. Eu já tava bem a fim de uma cerveja, mas ela não estava incluída na refeição. Peguei Mohamed de lado e intimei-o a pagar uma breja. Ele tirou o corpo fora, dizendo que não podia e tal. Miserento mão de vaca! Perdi até a sede. Mas antes do sol se despedir destas terras nipônicas, eu estarei sentado num bar me embriagando. Anote isso aí, caro leitor! Que seja escrito e que se cumpra!
Havia várias garçonetes, algumas mais velhas, mas esta que nos servia era realmente muito bonita. Sou casado e é capaz de deixar minha mulher enciumada, mas não posso evitar. A japonesinha usava aqueles palitos pra manter o cabelo, muito preto, preso. Era bem jovem. 22? O rosto branco não tinha maquiagem. Os dentinhos, como manda o figurino oriental, eram tortos. Seu quimono era muito grande e só dava pra ver o rosto, as mãos e os pés. Eu gosto de pés femininos! Muito! Apesar dos dedos menores serem meio zambetas, eram pezinhos delicados, com os outros dedos bastante simétricos e unhas pequenas sem fazer. Uma moça muito bela mesmo! Ok. Tirei uma foto dela. Pensei que, para evitar confusões matrimoniais, seria mais prudente apagar. Depois eu penso nisso. Eu provavelmente nunca mais iria vê-la. E, devido à semelhança entre elas, talvez nem a reconhecesse caso a visse novamente. Já pensou nisso alguma vez? Vc está num trem, num local público, vê alguém e sabe que nunca mais vai pousar os olhos naquela pessoa. Num país distante e populoso como o Japão isso era mais que certo. Divaguei, né? E sem beber saquê nenhum. É a falta de álcool no sangue. Preciso de uma cerveja. Sentei-me para comer (o almoço, não a japinha) e o papo na mesa, que dividi com Jorginho, Tabajara e um cara que desconheço, girou em torno das mulheres japonesas, especialmente aquela que nos servia. Gueixas? Comi bem (apenas comida!) e, já satisfeito, peguei o elevador de volta ao solo antes que a turba lotasse aquela porra.
Pensei em correr numa Family Mart e comprar uma lata só de birra, mas todo mundo começou a descer, os ônibus encostaram e partimos a seco para o bairro de Asakusa para conhecer um típico templo Budista, o Sensô-ji, o templo mais antigo de Tóquio. À aproximação do local dava pra notar uma área comercial bastante rústica, vendendo artigos de cozinha, pratos, panelas. Estacionamos numa quebrada certamente proibida para ônibus, correndo risco de guinchamento. Era Mohamed dando um jeitinho brasileiro de economizar tostões. Ok. Caminhamos dois ou três quarteirões chamando a atenção de todo mundo. Pelos uniformes, pelos gritos de guerra do Timão e pelo fato de sermos cento e poucos brasileiros navegando num oceano de japas. Este bairro é uma espécie de Brás aqui de São Paulo. Além de ser sede de algumas escolas de samba e ter dois distritos de gueixas (hum!), também é famoso por ter acomodações baratas para turistas duros. Fica ás margens do Rio Sumida onde encontraram uma imagem sagrada que tem relação com o tal templo que vamos visitar. Mas que é uma bocada, isso é! Opa, olha só uns riquixás levando mocinhas pra passear. Mas isso não é na China? Hum!
A primeira visão do templo que tivemos era uma espécie de portal que só depois, pesquisando na internet, eu descobri se chamar Nintenmon. Ao invés de pesquisar na internet, eu poderia ter seguido o Yuki e ouvido suas explicações portunholicas. Mas, sinceramente, tava a fim de caminhar sem rumo e curtir o local. As duas estatuas gigantes que adornam as laterais do tal portão eu descobri serem duas divindades budistas chamadas Zochoten e Jikokuten. As estátuas originais datam do século 19, mas estas foram colocadas ai mais recentemente. A verdade é que  maioria deste complexo budisto-xintoista  foi destruída por muitos incêndios ao longo de sua história e principalmente durante os bombardeios da 2ª guerra mundial. Yuki nos deu pouco mais de 20 minutos pra rodar o local, o que foi um acinte. Era muita coisa disposta num espaço bastante grande e com uma espécie de feirinha no lado oposto ao que chegamos. Porra, Yuki, assim não dá!
Minhas pesquisas posteriores na web indicaram que entramos por uma passagem secundária lateral. A estrada principal mesmo ficava do outro lado, numa espécie de entroncamento com a tal feirinha. Ok. Entramos errado, vamos seguir na nossa toada. Fomos eu e Jorginho, ambos já bem sedentos de uma breja, caminhando e nos espantando com a grandeza e o coloridos das formas e imagens. Do nosso lado direito surgiu a maior de todas as construções da área, o Konnondo Hall, um espaço também destruído durante a segunda guerra e reerguido em 1958. O pé direito interno é bem grande. Consegui distinguir dois planos diferentes: primeiro este onde estamos, onde as pessoas jogam moedas no chão, num espaço reservado a isso, sempre fazendo um desejo. Mandei um real brasileiro, pedi proteção pra minha família e que o Timão fosse campeão. Foi irresistível. É a Fontana de Trevi deles.  Circundei o local tentando ir a um outro pavimento  que ficava atrás, mas fui interrompido por um monge ou sei lá o que. Eu já estava tirando os sapatos segundo indicava uma placa quando ele me perguntou friamente:
- buddhist?
Eu falei que não e ele me disse que eu não poderia entrar. Fiquei puto! Havia uma multidão sem sapatos, responsável por uma leve chulezeira atenuada pelos incensos e vários dos nossos companheiros de viagem. Muitos já haviam entrado naquele local e certamente não eram todos budistas. Por que logo eu não poderia entrar?
- And all these people without shoes? Is everybody buddhist? (e todo este povo sem sapatos. São todos budistas?) - perguntei
Ele deu de ombros que sim e me indicou a saída. Monge de merda! Encanou com a minha cara, isso sim. Ok.
Segui minha caminhada com Jorginho ao meu lado.  Avistei do lado direito um templo com 5 andares (me ajude São Bill Gates) chamado  Five Storied Pagode que, claro, tb foi detonado durante a 2ª guerra. Hum! Tá visto! Opa, mais um portal gigantesco á frente, este com uns vasos dourados enormes nas laterais e uma luminária típica japonesa (aquelas que parecem uns balões), mas em tamanho absurdo. O nome deste portal? Hozomon ou Niomon, vc escolhe. Mais alguns passos e a verdadeira entrada do tal templo Sensô-Ji. O nome do portal é que é de fuder pra falar e até pra escrever: Kaminarimon ou Furaijinmon. Beleza? Aqui temos novamente a luminária gigante ao centro e nas laterais duas estátuas monumentais de samurais (ou coisa parecida) que representam dois deuses xintoistas: Fujin, o deus do vento, e Raijin, o deus do trovão. Bem, se estes caras são os protetores do Japão contra desastres naturais tipo furacões, tsunamis e vulcões, tenho que dizer que ou estão sobrecarregados ou são ruins de serviço, por que o bagulho é zuado aqui nessa ilha, mano! O negócio é pedir uma força pra São Jorge, Santo Expedito e São Judas. E tenho dito!
Passamos sob o tal portal cujas estátuas estão protegidas por grades de metal e entramos num feirinha com muitas barracas. Ali, sim, era a 25 de março da japaiada. Ou nossa, pensando bem, uma vez que era para visitantes estrangeiros como nós. Numa área claramente voltada para turistas, seguíamos por uma espécie corredor onde primeiro havia várias barraquinhas de comida. Na sequência tinha de tudo, desde máscaras, quimonos, camisetas, chapéus, óculos, brinquedos, lenços, tudo. Os preços? De 4 a 8 dólares. Dava pra torrar uma grana, nénão?
Como aquela era a entrada e estávamos caminhando no contra fluxo, íamos trombando com toda sorte de pessoas, desde japas até gente do mundo inteiro. Fomos pesquisando, pechinchando e acabei comprando um quimono pra Dex e outro mini pra Maju. Comprei uma faixa de samurai pra minha testa escrito vitória, em japonês, claro. Poderia estar escrito sou um filho da puta que eu não saberia, pois a escrita usava as enigmáticas “arvorezinhas”. Coloquei na testa, acompanhei Jorginho em suas compras de badulaques e começamos a caminhar de volta pro ponto de encontro. Algumas mocinhas começaram a passar por mim rindo. Serei algum tipo de palhaço? Estarei urinado? Não. A faixa é que estava de cabeça pra baixo, como me corrigiu uma senhora vestida de gentileza.
- Brasileiro burro, né! - Ela deve ter pensado.
Tamos prontos pra ir embora e cadê o povo? Só mesmo Yuki massa e sua tropa. Não sei porque acredito nestes malditos horários. As pessoas chegaram lentamente e dentro em pouco estávamos alojados novamente no busão. E agora? Vamos beber? Não. Vamos ao tal Skythree, a segunda maior torre do mundo, ali mesmo na área, no bairro de Sumida. Inaugurada recentemente (22 de maio de 2012) ela custou cerca de 800 milhões de dólares e estava acoplada a um complexo comercial que incluía lojas e bares. Além do mais, pra subir na torre e ter uma visão privilegiada de Tóquio era preciso desembolsar entre 1000 e 2500 ienes (entre 13 e 32 dólares ou 26 e 64 reais). Não era muito. Mas transformar aquela grana em cerveja parecia mais interessante àquela altura do dia e da nossa sede.
O busão parou, caminhamos um pouco, atravessamos uma pequena ponte sobre um riacho e começamos a fotografar o espigão japonês. Sobe, desce, entra, sai e chegamos a um elevador no qual só embarcaria que tava a fim de subir. Havia dois patamares, pelo que saquei: 350 metros de altura ou 450 metros de altura. Eu e Jorginho pedimos baixa e saímos a procura delas? De quem? Das cervejas! Eu queria um daqueles bares com cerveja artesanal japonesa, o que não ia ser muito fácil. A parte de baixo da Sky Three é um shopping e começamos a explorar subindo as escadas rolantes. Chegamos a uma espécie de Mezanino ao ar livre onde havia uma feirinha e, adivinhem: uma barraca com cervejas alemãs. Nada, nada, seria uma boa saída. Trocamos ideia com a vendedora japa vestida de alemã, deixando aquele local em stand by. A cerveja era realmente tentadora, mas queríamos sentar e beber relaxadamente. Ali era em pé!
Seguimos nossa exploração e acabamos num bar chinês. Hum. Nada de cerveja rara, só as comerciais de sempre. Agarramos na conversa e fomos mandando descer chopp Kirin. Tava gelado e tava bom. Estávamos no Japão e seríamos campeões do mundo. Dava pra estar ruim? Eu já tava bem feliz da vida e arregacei minhas mangas, exibindo as tatoos de garrafas. Percebi garçons e garçonetes rindo ao notar minhas tatuagens. Ninguém sequer falava inglês. Na verdade, a maioria do povo era mesmo chinesa. Fomos pedindo com o dedo, apontando para o cardápio. O papo com Jorginho flutuou entre a vida no Brasil, trabalho, família e, claro, Corinthians. Ele me disse que é filho de mãe paraguaia, pai brasileiro e neto de armênios e como a maioria dos armênios torce pro timão, ele entrou nessa por osmose. Como eu, Jorginho disse que não usa roupa verde e que já chegou a devolver presentes dessa cor. Eh,eh,eh. Eu tb. Fiquei surpreso em saber que ele foi a praticamente todas as decisões de campeonato das quais o Corinthians participou, inclusive nos jogos do mundial de 2000. O mais engraçado é que desde moleque, sempre que ia nos jogos, ele simplesmente não pedia permissão. Ao chegar no locais apenas ligava do estádio e avisava, deixando a mãe louca. Depois de casado, a mesma coisa.
- Quer saber Paulão: por mais que a mulher fique brava, depois a gente se acerta. Mas o jogo é uma chance única. Eu sempre vou e depois resolvo com a patroa.
Entre outras relíquias, Jorginho comprou réplicas da taça e da medalha de campeão da libertadores, além de ter uma camisa autografada por todos os jogadores.
- E agora tenho os ingressos de Tóquio. – completou feliz da vida
Saúde, parceiro. Simbora beber mais e mais. Teremos lembranças inesquecíveis destes dias orientais.
Numa mesa ao lado, duas senhoras ( e bota senhora nisso) começaram a lançar olhares estranhos. Velhinhas taradas, sim senhor. Seguimos bebendo. Deu. Tiramos fotos com alguns funcionários e vazamos. Fomos procurar outro bar. Tínhamos marcado um horário na parte de baixo do prédio para reencontrar o povo que subiu a torre e ainda queríamos bebericar brejas alemãs. Primeiro uma boa mijada. Louças Toto.
Cervejas alemãs sendo consumidas. Compramos duas Weihenstephaner, simplesmente  a cerveja mais antiga em fabricação no mundo, em atividade desde 1040 na região da Baviera, Alemanha. Pra mim, a melhor das alemãs de trigo. Jorginho é tabagista juramentado e acabamos indo beber numa área de fumantes, ali naquele grande mezanino do Sky three. Com vários chopps na cabeça e falando mais que o homem das cobras comecei a bater papo com dois japas de jaqueta de couro que tb davam suas baforadas. Os dois deram uma desmunhecada louca e meio que  “cantaram” na gente. Ui! Não houve necessidade de cortes agressivos. Apenas fingimos não entender e nos mandamos, entornado as german biers. Descemos dois ou três andares de escada rolante e nada dos nossos parceiros.
Mais uma dose? É claro que eu tô a fim! Fomos a um bar na entrada térrea do edifício e ali mandamos cada um mais duas boas  talagadas de saquê. Aquele dia/noite definitivamente não ia acabar tão cedo. Papo vem, saquê vai, avistamos alguns amigos através da fachada do bar e entornamos os copos. De volta ao busão, o lance agora era pegar os ingressos com Mohamed no hotel e descobrir um bar próximo (que nos permitisse ir a pé) para assistir Chelsea e  Monterrey. E, claro, beber muito mais. Como se bebe neste mundo, meu Deus! O efeito do saquê misturado á cerveja deixa aquela euforia deliciosa. O álcool faz isso. Se a gente souber beber com equilíbrio, completando o tanque na hora certa, é certeza de diversão. Porém, esta lucidez geralmente nos abandona depois do 3º, 4º copo. E eu e Jorginho já estávamos pra lá de Kyoto. Pegamos nossos ingressos e o do Adney tb, uma vez que ele estava na tal reunião da seguradora.
Banho, troca de roupa e resolvemos ir a um bar de futebol chamado HUB, que fica ao lado da estação do metrô mais próxima, Ikebukuro ST. O povo da recepção do hotel disse que era um British pub. Certamente não era o local ideal para “secar” um time inglês e torcer pro Monterrey. Mas estávamos numa tropa bastante grande e a farra parecia garantida. Éramos eu, Jorginho, Edu, Tabajara, Dalmir, Falconi e mais alguns que eu realmente não sabia o nome. Nem por isso menos animados. Deixamos um bilhete pro Adney com um mapa da área. Simbora singrar os mares alcoólicos desta quinta feira gorda em Tóquio. #Vai Monterrey!
Saiu o bonde do Timão pelas ruas abarrotadas de Ikebukuro. Eram 6, 7 quarteirões até o local. Batiam nove da noite e estávamos no contrafluxo da galera que vinha da estação do metrô da área. Coxas de fora e máscaras em profusão, vcs sabem. Eu e Jorginho já bem calibrados, apesar do banho.
A noite em Tóquio nestas áreas comerciais é iluminada pelas fachadas das lojas. E tem uns malucos sobre caixas de madeira anunciando promoções e ofertas na frente das lojas. Há muita gente de bicicleta pelas ruas tb. Passamos por um grupo grande de mocinhas que se arrumavam para a balada, todas em grupo, numa praça pública.
Seguimos as indicações do povo do hotel, mas não achamos o Hub. Eu já estava praticamente mudo e minha voz se assemelhava mais a um grunhido que à fala humana. Mesmo assim, fui tentando achar nosso destino perguntando. E, claro, o álcool que desfilava pelas minhas veias me dava a certeza de falar inglês perfeito. E não iam ser os japoneses que iriam dizer o contrário. Vira pra cá, tira foto com japoneses malucos de lá, chegamos ao tal Hub. Um pub bastante iluminado por dentro, com várias chopeiras e garrafas de bebidas de todo o mundo. Um típico pub britânico, na verdade, com muita japonesada enchendo a cara. E nós. Arranjamos uma mesa grande que nos acomodou a todos. As bebidas giravam em torno de 1000 a 2500 ienes. Fui até o caixa, pedi um chopp e verifiquei a capacidade do povo de nos entender e os preços. Não dava pra fazer uma conta geral na mesa, senão alguém ia morrer com dinheiro demais. Orientei cada um a ir até o balcão, pagar e apontar no cardápio o que quisesse, uma vez que estávamos naquele esquema, bebeu-pagou.
O jogo entre Chelsea e Monterrey já estava comendo e os ingleses dando baile. Tentamos o máximo que pudemos apoiar nossos amigos mexicanos, mas não deu. Os ingleses mandaram no jogo e meteram 3 a 0. No finzinho o Monterrey fez unzinho, mas não fez nem fumaça. Na verdade, não ficamos muito preocupados com o jogo. Estávamos com uma sede imensa e a cerveja corria a rodo. De repente uma tequila. Uma cuba. Saquê. Olha quem chegou: Adney, também calibrado e sedento. Ao final do jogo do Chelsea iniciamos uma cantoria absurda de gritos de guerra do timão. O bar chacoalhava e os garçons, desesperados, tentavam colocar ordem na turba bêbada brasileira. Como se tratava de um bar com temática de futebol, um garçom vestido de juiz me deu cartão amarelo. Segui  tocando o puteiro. Levei o segundo amarelo e fui expulso. Na verdade, todos fomos convidados a deixar o recinto. Saímos pra rua numa empolgação movida a muito, mas muito álcool mesmo.  Ali mesmo na calçada, juntei meus comparsas numa posição de coral e, colocando-me como um maestro, regi o hino do Corinthians, para espanto dos japas que passavam. Adney me disse que havia um outro Hub por perto. Na verdade há vários em Tóquio e em todo o Japão. Depois descobri que Adney havia se enganado e ido ao outro Hub antes de nos encontrar. Ok, ok, bora pro outro Hub. Fazer o quê? Beber mais. Tocar o puteiro!
Foi o que aconteceu. Em algum momento encontramos Beavis, Butt-Head, Rochinha e Rapha. Exército reforçado. Neste segundo Hub havia uma garçonete brasileira. Seu nome? Não lembro, claro. Neste momento cerveja, tequila e saquê eram virados como água. Pelo menos por mim. Nossa garçonete brazuca servia um drink esbranquiçado nuns copinhos verdes. Eu não sei o que era, mas virei alguns e comecei a equilibrar os copos na cabeça. Não posso definir que língua estava falando neste momento. É provável que passasse da meia noite. Em algum lugar do mundo. Pedi uma tequila e me invoquei com o tamanho miserável da dose. Talvez eles estivessem tentando nos mandar embora tb. Talvez eu só estivesse absurdamente bêbado e querendo confusão. Fui até o balcão e reclamei. A mocinha japa disse que era aquilo mesmo. Em protesto, peguei um pano de limpar balcão e coloquei sobre a cabeça. Ela se aproximou e disse que eu não podia colocar o pano na cabeça.
- E quem é que vai me impedir? O Imperador?
A bravata soou solitária. Adney se aproximou e bebeu a tequila que era a razão da minha revolta. Na verdade, a razão da minha revolta era o tsunami alcoólico que estava instalado no meu ser. Já tomei muitos porres na vida, mas não me lembro de ter continuado em pé numa situação semelhante. Antes de sair de vez ainda tentei convencer dois japas magricelos que me foram apresentados como donos do bar. Tinham cara de mafiosos e simplesmente me ignoraram. Eu não posso dizer que estava no melhor momento para argumentar com classe.
Rua pra nós todos pela segunda vez na noite. A maioria achou melhor ir pro hotel, mas o caminho se mostraria bem longo e cheio de doideiras. Primeiro dei um perdido na galera e sai correndo atravessando uma avenida movimentada. Depois convenci Falconi, Tabajara e Adney  a fazer uma foto beatlemaníaca sobre a faixa de segurança a lá Abbey Road. A cada esquina trombávamos com japas tão chapados quanto nós e mais gritos de guerra do Timão ecoavam. Fizemos tanta zona que um carro da polícia passou a nos acompanhar de perto. Não chegaram a nos abordar, mas ficaram vigiando pra ver o que iríamos aprontar. Já nas proximidades do hotel, eu, Falcony, Tabajara e Adney emendamos a milésima saideira na já tradicional Family Mart da esquina onde havíamos bebido com mestre Yoda, digo, Afonso, no período jurássico. Entre outras pasmaceiras, reeditamos a famosa jogada em que Cássio, no jogo da Libertadores contra o Vasco no Pacaembu, defendeu uma bola cara a cara chutada por Diego Souza. Chega? Não.
Entramos no hotel e demos com a torcida do Monterrey se embebedando. Imediatamente nos unimos num esforço pan-americano alcoólico e seguimos entornando mais. Eu já não estava mais neste planeta, e hablava uma língua inumana. Fui até a conveniência de dentro do hotel comprar mais cerveja e achei mais amigos mexicanos e brasileiros. E mais e mais foi bebido. Esqueci de voltar com a cerveja que fora comprar pra beber com os hemanos mexicanos. Havia um cidadão neozelandês, se não me engano, com quem troquei muitas palavras em inglês. Não sei como. O tal neozelandês começou a provocar e tirar sarro de alguns amigos da torcida do Monterrey (que a esta altura foram à minha procura na conveniência)  e quase que Adney cola o brinco dele. Em meio a tanta chapação, fui pro quarto temendo dar óbito ali mesmo. Tranquei a porta e abandonei meu corpo. Adney notou minha falta e lembrou de uma promessa bêbada minha de dormir na rua naquela noite. Saiu me procurando e após esmurrar a porta do quarto sem resposta concluiu que eu havia mesmo ido dormir na rua. E com a  temperatura que fazia, eu certamente já havia virado presunto. Ou picolé. Com a ajuda de um funcionário do hotel, meu parceiro conseguiu abrir a porta do quarto e deu comigo dormindo de roupa e sentado, abraçado na pochete que continha documentos e grana. Disse Adney (e no estado em que eu estava não havia como contesta-lo) que eu me recusei a tirar a roupa e apenas deitei-me com a cabeça pendendo para fora da cama e assim adormeci. Lembro de ter acordado ao amanhecer com dor de cabeça e muita sede além de uma ressaca maior que o Godzilla sobre mim. Ai tirei a roupa e dormi de novo. A noite de quinta feira havia sido a mais louca de todas. Em compensação, a sexta feira, pelo visto estava perdida.